É engraçado quando me pego escutando músicas regionais e de repente cria-se um ar de mística. O som das produções daqui assumem um caráter tão místico. Não há como escutar Alceu Valença, Zé ramalho sem essa sensação, assim como escutar Legião Urbana sem seu cunho político ou Ira! sem a impregnação urbana. Mesmo morando a tanto tempo aqui, ainda me perco com eu estrangeirismo, ao tentar diferenciar os sons que escuto tanto. Quando é baque solto? E virado? Caboclinho é de índio e afoxé é de afro? É engraçado como escuto Coltrane, Milles Davis e Chet Baker e me transporto ao som do piano, do trompete, da harmonia, ao passo que com Mothorhead, Pink Floyd, Deep Purple e o restante da trupe a agressividade toma diversos ares e aspectos tão elevados, sublimados pelo som pesado, pela harmonia e a composição de timbres e tempos... Mas escutar as músicas daqui ainda é algo meio que indefinido, chega a ser quase primal. Percussão, metais, história, folclore, a ancestralidade que não é minha pulsa, ela não quer sublimação, quer sair e se juntar ao som, na ciranda de mãos, no baque do maracatu e na loucura febril dos malabarismos das passistas... A rabeca toca desafinada e comanda toda uma orquestra de emoções que dançam sem compasso ao escutar. Ora, o que seria esse louco compasso senão a vida?
Trilha Sonora: Alceu Valença : Bobo da corte/Casaca de couro/Sol e chuva
Ando relembrando tempos de telhados molhados. Sim me recordo bem de como eram escorregadios e como eu costumava rumar pela cidade velha nos fins-de-semana, muitas vezes sozinho, outras tantas com amigos tão queridos. Nas ruas feitas de paralelepípedos antigos, com linhas de bonde de séculos passados da cidade velha, de um bairro que já fora boêmio, me lembrava do vento frio que vinha do mar e passava dos arrecifes para o marco-zero do então bairro, correndo por entre as estreitas ruas de casarões antigos, como seu próprio nome, até ir parar por sobre meus ombros na frente daquele barzinho underground que costumávamos ir para dançar ao som de The Smiths, Joy Division, New Order, The Cure, David Bowe e tantos outros. É engraçado ver que não fazem tantos anos assim, mas que essas lembranças já se juntam ao montante das boas lembranças que carregamos como remédios para os pequenos momentos de tédio e solidão. Não que a solidão seja algo que eu tema, ou que busque um retorno a momentos que tiveram seu exato momento, mas esse adulto que já caminha pra deixar de ser tão jovem ainda carrega sua meninice o tempo todo. Os dias de chuva sempre me lembram nossas idas e vindas nas noites daquela rua agitada, cheia de pessoas diferentes, estranhas, mas sempre com bons amigos.
Trilha sonora: Joy Division: Love Will Tear Us Apart: (não tanto pela letra da música, mas sim por todos que vêm me visitar quando ela toca)
Nessas noites de chuva fico olhando os gatos que rondam os telhados das casas. Despreocupados caminham. Seguindo sua fome e seu cio, tocam as patas nas telhas molhadas das casas abaixo do andar do meu prédio. Pergunto-me se há poesia na vida cotidiana. Se debaixo de todas as contas do mês pra pagar, ainda resta um pouco de Oscar Wilde, Clarisse Lispector, Fernando Pessoa. Um mundo louco a beira do colapso e eu penso na minha sobrinha de olhos verdes que tem menos de 1 ano de vida e fico com saudades. Saudades de vê-la batendo palmas para o nada e por vezes olhar fixamente em meus olhos, rindo abertamente sem nenhum dentinho.
Há muito tempo eu não caminho pelos telhados molhados das casas. Nunca tive vocação para felino.
In the absence of your love And in the absence of human touch I have decided I'm throwing my arms around Around Paris because Only stone and steel accept my love
In the absence of your smiling face I travel all over the place And I have decided I'm throwing my arms around Around Paris because Only stone and steel accept my love
I'm throwing my arms around Around Paris because Only stone and steel Accept my love
I'm, I'm throwing my arms around Paris because Nobody wants my love Nobody wants my love Nobody needs my love Nobody wants my love Yes you've made yourself plain Yes you've made yourself very plain
Aproveitando os últimos 30 minutos antes de ir para o meu plantão, eis que sinto o ímpeto quase improvável de escrever. O pretexto que me faltava.
Na verdade me pergunto por que não estou escrevendo. Imagino e redijo enormes textos em minha mente, nos ônibus que percorrem as enormes ruas dessa cidade cheia de pontes e canais, mais quente do que eu gostaria e mais acolhedora do que poderia merecer.
Mas o que está em questão não é a minha falta de comparecimento, ou de opiniões sobre o que acontece. É sobre o que me motiva a escrever logo agora, após assistir “O diário de Bright Jones”.
Antes que essa notícia se torne um alarme para quem não está habituado a me ler, ou os que descobrem esse espaço por um acaso, procurando por palavras soltas no Google que acabam levando até aqui, deixo claro que não sou um amante desse tipo de filme, não sou um homem de comédias românticas, sou o outro lado da moeda da minha esposa geminiana.
Mas hoje ganhei um presente. Dar ouvidos ao pedido dela de assistir ao filme, que ela deixou estrategicamente antes de viajar, evitando deixá-lo de lado e inventar que dormi durante o filme, foi algo que se junta ao rol das pequenas descobertas que podem mudar a vida de uma pessoa.
Pegar-me assistindo um filme sobre o universo estranhamente feminino para mim, um dia após voltar completamente acabado do show do Motörhead (pois é), foi no mínimo engraçado.
Embora ainda não seja um amante das comedias românticas, ou conhecedor de tantos filmes diferentes como minha geminiana (já que como outro lado da moeda, acabo voltando meu vício para os livros), descobri um pouco desse sentimento que acredito que ela, e talvez tantas outras tenham em ser cúmplices de um filme que faz comédia justamente dos mesmos assuntos que tornamos comédias diariamente em nossas vidas, das pequenas inseguranças, paranóias, dos relacionamentos (e ai não só do universo feminino, mas de nós humanos, homem, mulher, viciados em sexo, celibatários e servidores públicos).
Não sou machista, acredito que a maioria saiba, mas também não sou tão mocinho ou vilão como os consortes dos filmes de comédia romântica.
Talvez mais do que vilão ou mocinho, eu seja daquele tipo de personagem que quase nunca são colocados nos filmes, os que não têm o charme do Hugh Grant, o dinheiro de uma família inglesa abastada, os que não demoram pra perceber que estão apaixonados nos últimos 30 minutos da película (os últimos minutos que levo para terminar de escrever esse texto). Não precisei esperar até o fim do filme para dizer a minha Bright Jones que a amo do jeito que ela é e adiantar o tão esperado beijo final.
Os filmes acabam sendo curtos demais pra mim. Ando mais para o velho seriado de antigamente sobre o casal que descobre, sofre, enfrenta todos os desafios, ora com pieguices, hora com humor sem sentido, dramas e epopéias, e com episódios pay per view impróprios para menores.
Ando cansado da velha retórica das descobertas, das contemplações. Andei alguns meses preso ao concreto, menos Bilac e mais Machado e Nelson Rodrigues. Tenho trabalhado como uma mula, e não tenho tido o ímpeto de visitar este espaço para escrever. Já fui esquecido várias e várias vezes, e por várias e várias vezes me reconstruí por aqui. Mas ai está a questão. Onde é aqui? Onde me encontro e onde nos encontramos aqui? Um espaço formado por palavras sem massa corpórea, permeada as vezes por imagens de momentos e pessoas que se perdem nos milhares e milhares de sites e informações que surgem a cada segundo. Crise financeira, Obama, deslizamentos de terra, enchentes, fóruns de informações, o próximo a sair do Big Brother, fofocas dos famosos, sites pornô, New York Times on line, blogs, fotologs, milhões de terabits de informações a cada segundo. Toda informação já é passado. Um passado que permanece eternamente, que pode ser resgatado e relido quantas vezes você quiser. Um espaço onde a palavra tem mais peso que o corpo. Perdi 11kg e parece que esse peso foi tirado proporcionalmente às minhas palavras. O blog está mais leve também, senão de conteúdos talvez de qualidade. Qualidade de vida (virtual) é bom. E mudanças já não assustam. A uns 5 meses já não sou DW... talvez já não o fosse a muito tempo, e ao me reinventar esbarrava justamente na peça que não era trocada. Bem, acabei ganhando uma nova alcunha, da qual me afeiçoei e pela qual fui sendo redescoberto por outros anônimos como eu. Não mais um DarkWizard, clichê mais do que utilizado hoje em dia, criado na adolescência em pleno apogeu do mIRC. Surgem os msn’s da vida e aquilo que não se transforma acaba esquecido por aqui, e passei de um bruxo americanizado para uma força da natureza mais cosmopolita. Demorei pra me acostumar com o novo nome, mas hoje ele surge com espontaneidade. Tempestade. Uma vida tempestuosa, tanto para causar estragos quanto para trazer as chuvas necessárias para se crescer.