Veja só, até parece que é o fim. O meu piano eu vendi, porque o sensível me dói. Eu comprei uma biker, uma calói colorida. Fiquei sem grana, porém... pedalo o mundo, sinto a rua.. Leio a banca de revista, tem entrevista.
Veja só e eu que pensei que fosse o fim. Tudo que tinha eu revi, mas minha alma ficou. Uma galinha comer, um filme pra assistir. Alguém avise: Mainha to bem.
Cada vez chove mais e a cada vez mais minha relação com a chuva muda. Escrevi a um amigo de longa data e lhe mandei uma foto de quando éramos garotos, quando a vida ainda não se tornaria esse lugar que hoje ocupo em mim. O vento frio adentra pela varanda e toma todos os cômodos da casa. Como é bom sentir frio nessa cidade que faz tanto calor. Caminhar descalço pelo chão gelado. Vou morrer e caminho em sua direção contrária. Estou bem mais velho do que quando comecei a 5 anos atrás e com muito mais perdas e redenções do que o jovem recém chegado a faculdade. Se não, pelo menos tenho hoje mais músicas para cantar do que antes. Hoje quero ter filhos, olhar em seus olhos e lhes dar o mundo. Um mundo que construo aos trancos e barrancos, tentando sempre manter o coração leve e a mente aberta. Mas o que é que to falando? Já já vou acordar e não consigo parar de sonhar que estou postando no blog.
(yeah, very bad english, but who cares?) =] Um dia na vida de todos nós.
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I read the news today oh boy About a lucky man who made the grade And though the news was rather sad Well I just had to laugh I saw the photograph
He blew his mind out in a car He didn't notice that the lights had changed A crowd of people stood and stared They'd seen his face before Nobody was really sure if he was from the House of Lords.
I saw a film today oh boy The English Army had just won the war A crowd of people turned away But I just had a look Having read the book, I'd love to turn you on...
Woke up, fell out of bed, Dragged a comb across my head Found my way downstairs and drank a cup, And looking up I noticed I was late.
Found my coat and grabbed my hat Made the bus in seconds flat Found my way upstairs and had a smoke, and somebody spoke and I went into a dream
I read the news today oh boy Four thousand holes in Blackburn, Lancashire And though the holes were rather small They had to count them all Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall. I'd love to turn you on.
Ela dançava em círculos de olhos fechados até ficar tonta. A vida era uma dança circular, uma ciranda solitária ao redor do nada que era sua vida.
Seu corpo suava em bicas e ela ficava imaginando como poderia suar tanto, como podia se preocupar tanto. Olhava-se nua no espelho e tentava juntar os pedaços de si.
Cabelos sobre os olhos, o chão frio sobre seus pés... Voltava a dançar em círculos de olhos fechados, para sempre rodando, rodando...
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Sete horas. A voz do Brasil anunciava mais atos secretos descobertos, reproduzindo os discursos de parlamentares em um som repleto de estática, com a mesma péssima qualidade de 40 anos atrás. Uma cidade de concreto, repleta de segredos.
Oito horas. Os jornais relatavam epidemias mundiais, crises financeiras, mais uma matança em um colégio americano seguido pelo suicídio de um aluno. Fome e enchentes aqui, AIDS e fome na África, Guerra e fome em Gaza, Petróleo e fome nos Emirados.
Vinte e quatro horas de novas notícias a cada minuto na web. Campeão de comer tortas, briga de gangues, alguém canta solitário, alguém filma seu cachorro vomitando, 30 segundos de um rosto cortado pela lâmina da gilete vertendo sangue, alguém que consegue enfiar a mão inteira na boca...
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Ela girava em seu quarto com os olhos fechados.
O mundo girava ao redor dela, com fome. Ambos giravam para o mesmo lado.
Cápsulas pelo chão, a parca luz do sol das quatro e quarenta e nove da manhã se infiltrava frio pelas persianas abertas de seu quarto. Ela girava. A música era lenta e ela podia sentir a grama molhada sobre seus pés. Cheiro de terra molhada, leve garoa lá fora e o vento frio entrava eriçando seus pelos.
Ela não conseguia parar de girar. Logo estava tomando banho e indo para o trabalho. Duas horas e dois ônibus. Ponto batido às oito e sete. E ela continuava a girar em seu quarto.
Quatro horas em uma mesa, papeis e mais papeis, um cafezinho e cinco minutos para um cigarro. E ela continuava a girar em seu quarto.
As doze e vinte e três o almoço, sem fome, outro gole de café para voltar à mais quatro horas de papeis e mais papéis. Os pés doíam no salto. E ela continuava a gritar em seu quarto.
Três horas e meia para voltar, dois ônibus, chuva torrencial. E ela continuava a gritar em seu quarto. Três horas em pé, apertada, suada.
Ela não parava de girar e gritar em seu quarto. Passos rápidos, ela subia as escadas desesperadamente ao seu próprio encontro. Primeiro andar, segundo andar, no terceiro andar já não conseguia manter o ritmo. Podia ouvir de longe o grito. Ela girava de braços abertos e sentia os respingos da chuva que invadia seu quarto pela janela aberta.
Porta aberta, saltos jogados no canto. Sentia o chão frio enquanto caminhava descalça pelo apartamento até seu quarto.
Ao abrir a porta só havia as mesmas cápsulas no chão, uma pequena poça formada pela água, que respingava pela janela, e uma luz neon que vinha de um letreiro a dez metros de sua janela, que brilhava em tons púrpura e azul.
Caminhou até a varanda, sentando na poltrona que dava de frente para a extensa avenida, sentindo os pingos da chuva e o vento frio que tirava seus cabelos dos olhos.
Fui convidado pelo castor para ir a um espaço que ele inaugurou com a esposa. Amigos, conhecidos e pessoas por conhecer. Tanto para nos conhecer, naquele espaço de almofadas e tapetes, de fotos de flores do interior do estado em molduras pelas paredes, de estantes de livros com poucos e importantes livros... Quem um dia irá imaginar que estivemos lá depois de todos nós irmo-nos? Quem iria imaginar que por algumas horas pudemos deixar mascaras do lado de fora e nos atrever a não julgar por alguns instantes... Quem poderia saber como foi bom rever amigos, e dizer quantas saudades senti. Na verdade eu queria falar de livros aqui. Livros que li, estou lendo, irei ler. Não costumo me ler tanto. Aqui jogo as palavras e as deixo tentar fazer sentindo, com erros de concordância, de gramática. Compro livros na livraria e espero terminar o do Renato. Quero falar menos de mim. Quero menos de mim mesmo. Quero palavras.
Ando me perdendo na vida de um outro, lendo passo-a- passo as sobras de uma vida que agora tornou-se pública.
Tenho um pouco de pudor de ler biografias, mas leio essa com a lentidão de quem sabe como termina a história e não quer chegar ao final.
Ler a história do Renato (sim só Renato), está sendo meio que me apoderar de uma história de um período que foi meu também e que, por ser uma criança, se mostra as vezes tão distante e enevoado em minha mente.
Tenho me descoberto de repente lá, nas entrelinhas, com os mesmos amigos, bebendo, filosofando e discutindo literatura, na varanda de Carol’s, com o Castor e Pepel até amanhecer, enquanto passa um filme russo na TV, pra depois voltar pela orla, sentindo a brisa fria do mar, cantarolando e sentindo o vinho fazer efeito...
Na verdade tudo é pretexto para lembrar de bons momentos...
Ler a vida de outro é curioso, algo de um voyeurismo mudo, mas que ameaça se apresentar a qualquer momento. Eu ainda tenho pudor... não consegui terminar o livro em que haviam sido publicadas as cartas de Clarice Lispector à suas irmãs.
Toda história merece ser contada, e essa é uma boa história, uma história de pessoas reais.