É com pesar que recebo e venho repassar a notícia da morte de José Saramago. Ele era o maior representante da literatura de língua portuguesa na atualidade.
Segundo nota da fundação Saramago, ele faleceu em decorrência de múltipla falha orgânica. Ele faleceu em sua casa, aos 87 anos, de forma serena e acompanhado pela família.
Para mim a língua portuguesa perdeu um pouco do seu simbolismo com a morte de nosso amigo lusitano. Digo amigo porque a amizade nasce da relação e é disso que sua obra trata, das diversas relações nos mais variados sentidos.
Acho que a essa hora ele deva estar batendo um longo papo com Fernando Pessoa.
Para nós basta lamentar a falta que suas palavras farão ao português, e ao mundo.
Quem freqüenta o Tardes Quentes de Outono, já deve ter percebido que há na lista de blogs que leio o blog do próprio Saramago. Quem nunca viu, é um ótimo espaço para apreciar bons textos.
Saindo um pouco desse lado recapitulador de minha própria vida e suas reflexões e indo para minha veia mais jornalista e sociológica, fiquei a refletir sobre um tema tão atual quanto chinfrim para mim: a MODA. Em um período de fashions weeks, como o que vem acontecendo aqui nesse momento, fico ainda me surpreendendo com os contra-sensos que encontro quando vou à loja e dou de encontro a um dos últimos subprodutos das passarelas internacionais e nacionais, o que sobra das solas dos saltos-altos das supermodels: a roupa que vou comprar pra mim.Não sou uma pessoa fisicamente privilegiada de beleza e proporções corporais (se bem que, mesmo com toda a vaidade de um jovem adulto e a pressão da mídia sobre beleza, para mim não fazem mais falta do que possuo dentro da cabeça), mas gosto de me vestir bem e confortavelmente. Na verdade, a ultima coisa que levo em conta na hora de comprar as sobras dos desfiles, das modelos, dos anúncios, do lobby, das grifes e dos bilhões de dólares em investimento é o meu gosto. Compro o que me serve, melhor dizendo: no que caibo. Não preciso ser mulher para sentir a grande exclusão social que existe quando o assunto é se vestir (e não quero dizer aqui se vestir bem ou mal, e sim, se vestir). A verdade é que o grande fator de exclusão é somente um, se chama PADRÃO. Eu não estou nesse padrão, tenho 1,93 metros e tenho meus quilinhos a mais como bom leitor sedentário, assim como quase toda a população brasileira.Embora ache muito interessante a leitura de Lipovetsky faz da moda como uma nova estrutura social, que talvez venha reciclar velhas ideologias, o que encontro está longe de minha visão confortável do trio básico (jeans, camiseta e tênis). Quando as camisetas não tem cores berrantes, milhares de estampas sem sentidos, ou milhares de anúncios e marcas de suas fabricantes, as calças tem mais furos e são mais surradas que as de um mendigo, sem falar que encontrar um tênis (ou qualquer outro sapato) de numero 45 que não seja semelhante a um sapato de astronauta ou sapatos do Cirque de Soleil é piada. Talvez o objetivo final da moda seja com que fiquemos tão ridículos como as pessoas que desfilam as grandes grifes. Pena que não ganho 1 centavo para bancar o palhaço.
Na passarela é conceito. Na rua é mau gosto.
O tempestade continua procurando roupas legais que sirvam nele
[...] enquanto escuto “So What” nos fones de ouvido. Geralmente fico naquela mesma cafeteria do shopping, onde as pessoas normalmente estão almoçando apressadas, só para matar o tempo entre aquele momento e o momento da minha quase meia hora de monólogos. Não chega a ser uma cafeteria tão bonita ou charmosa, mas é acolhedora em seus tons de creme, baunilha e café nas paredes. Já o era, antes de ser reformado, quando jovem e meu pai me deixava esperando-o lá, tomando café expresso e lendo a Carta Capital da quinzena. Mas, onde eu estava? Ah, sim! Era que, de vez em quando, sinto minha vida tomar ares de romance, não daquelas grandes obras que trazem tramas complicadas, mas um daqueles que se lê em uma seqüência quase monótona, que vai enchendo o peito e que deixa um sabor gostoso ao se chegar ao ponto final. Desconheço, por vezes, o quanto me perco em minha própria ficção, mas consigo tirar dela um sabor monótono, como os ventos quentes das tardes ou os salpicos finos da chuva que bate em minha janela e deixa pequenas gotas d’água sobre os livros da escrivaninha que estava lendo na noite passada. [...] [...] quase na hora de ir. O creme de chantili bóia no café morno, lembrando-me de que o café só permanece quente, quando se devaneia, nos filmes. Está chovendo bastante nessa tarde de maio. Não tenho guarda-chuva. Escrevo pra passar o tempo, pra não me perder tanto nas linhas da vida cotidiana. Pago meus cafés, ponho minha jaqueta marrom com as marcas da chuva que levei e ando rápido, antes que a chuva caia com mais força.
E não consigo parar de assoviar “Só sei dançar com você” da Tulipa Ruiz.
“... Estava em uma região pantanosa e úmida, em uma cidade perto de São Paulo. Lá, ao lado de um lago, cercado por árvores de copas densas e troncos enormes, ficava o teatro de arquitetura inglesa, no qual as peças da cidade eram interpretadas.
Fora convidado para fazer uma ponta em uma peça, pois faltavam atores suficientes para ela e eu dispunha de algum tipo de amizade com um dos diretores.
A peça era uma versão macabra para um dos contos de Machado de Assis, interpretada em um palco parco, com pouca luz mas uma platéia que enchia o salão. Uma platéia silenciosa e de rostos inalterados.
Não havia coxias, ao lado do palco havia uma porta que dava para os bastidores. O camarim nada mais era do que um pequeno quarto úmido, com cadeiras jogadas e cheio de teias de aranha, com uma pequena porta para o banheiro, também de proporções ínfimas com uma fraca luz que vinha da velha lâmpada, pendurada somente pelo fio de eletricidade.
Eu interpretava um juiz velho, que fazia às vezes de advogado, ao tentar persuadir o júri e os espectadores do teatro, sobre a sentença de um demônio que estava no teatro. Eu não conhecia o texto e não interpretei bem em minha primeira noite. Fiz o mesmo papel por três noites. Sempre era noite e o teatro inglês, em seu interior, assumia características de uma velha igreja.
Não sei dizer se estava no século XVIII ou XIX, mas os cavalheiros possuíam cartolas e as damas, longos vestidos. Era sempre a mesma platéia a assistir a apresentação macabra, como se eles não saíssem de suas cadeiras e ficassem lá até o próximo espetáculo.
Na terceira noite de minha atuação, o demônio preso à parede do teatro inglês tomou vida no momento em que estava fazendo sua defesa, em uma atuação bem melhor do que a do meu début, fazendo com que a maioria os espectadores e atores fugissem tomados pelo pavor.
Fui para a porta do teatro, junto com outro ator que me apontava um terceiro que clamava por mais atores, pois a peça tinha que ter um fim. Do lago via surgir figuras completamente estranhas, humanóides. Seus corpos eram marrons como terra, usavam roupas feitas de metal que lembravam partes de armaduras e tinham asas. O velho ator do meu lado me explicava que eram elementais de água e apontava para as árvores de onde saiam da escuridão pessoas mortas, em diferentes estados de decomposição, vestindo mantos brancos, andando lentamente, alguns se arrastando, enquanto o terceiro ator dava graças por ter sido ouvido. Os novos atores que iriam compor o fim da peça estavam presentes.
Dentro do teatro o demônio revirava cadeiras, tomado pela cólera. Estava inconformado por ser um demônio e sua fúria parecia residir no fato de desconhecer motivos para sua existência. Eu, já dentro do teatro, mas não mais trajando a barba falsa, mirava o olhar para o demônio, a fim de aproveitar a pouca luminosidade que entrava pelas enormes janelas do casarão inglês, para poder vê-lo melhor.
Clarisse olhava as hélices do ventilador do teto, lento. Já não fazia idéia se era mais um sonho ou se estava acordada.
Sua mente estava vazia, como um saco vazio cheio de ar esticando-o, seu corpo pesava naquela cama de lençóis baratos, cujo colchão afundava em seu meio. Havia acordado a mais de uma hora, o ardor em seus braços, que antes a mantinha desperta, agora nada mais era do que uma pequena lembrança de noites primevas. De vez em quando podia acreditar escutar uma versão do rádio de Mother Goose, do Tull.
Clarisse não iria levantar, mesmo ao ouvir o barulho de Cecília ao expurgar o resto de toda a noite passada no vaso sanitário do banheiro branco. Cecília havia sido honesta com ela, nunca lhe prometera nada e sempre havia deixado claro que redenção era algo que não encontraria com ela. Clarisse a olhava vir, nua, com os braços brancos, tão cheios de marcas, mas continuava linda ao descerem as gotas de suor sobre se corpo, que caminhava vacilante em direção à cama.
Colado à janela uma velha capa de Ziggy Stardust, a pequena tv ao lado da radiola, seus pôsteres, seus livros, seus cansaços se espalhavam pelo resto do ambiente. Ouvia Cecília chorar baixo contra o travesseiro enquanto olhava a hélice do ventilador girar cada vez mais lenta. O cheiro dela era uma mistura de suor e canela, seria bem mais doce, não fosse o cheiro que a lembrava do gosto metálico de sangue de seus pequenos furos em seu corpo. Seu choramingar ao travesseiro era doce, uma música distante que ecoava dentro da cabeça de Clarisse.
Não iria dizer nada para Cecília, o silêncio sempre fora suas conversas mais íntimas. Não iria humilhá-la dizendo algo. O olhar ainda para o teto, parado no tempo, regente das lágrimas que também eram suas. Cecília cheirava a canela, estava cansada, mal conseguia manter os olhos abertos. Seu toque era suave. Cecília abraçava-a levemente fazendo com que suas pernas pesassem sobre as de Clarisse, enquanto sua cabeça se acomodava próxima ao seu rosto, sentindo o cheiro de seus cabelos. Quase apagando. - Humm.. você está tão fria Clarisse.
Olho para mim, através do espelho horizontal colado à parede do pequeno café. O tilintar das xícaras, postas na máquina pelos baristas, misturam-se com as pontas revoltas dos meus cabelos ao olhar o espelho.
Os cafés, para mim, sempre foram as ante-salas, as salas de espera para os encontros comigo mesmo.
O outro do espelho escreve pequenas anotações no guardanapo de papel. Penso que ele deva estar a escrever algo mais interessante. Ele realmente precisa cortar aqueles cabelos e fazer a barba.
Tento ler minha sorte na xícara vazia de café, nada que vá além das contas para pagar e das pequenas grandes descobertas que desnudam a realidade da qual não me apercebo.
Ele escreve sem parar, quase que em transe, quase que rasgando os guardanapos, de tão rápido que escreve.
Olho para o espelho e o vejo concentrado, escrevendo como se não precisa-se parar para pensar no que escreve, juntando palavras, pontuações, vírgulas e mais vírgulas, sem precisar fazer sentido, como se o próprio ato de escrever fosse substituto para o curso do seu pensamento agora vazio.
Já eu, em minha observação, me prendia entre o cheiro dos croissants e dos cafés, e as pessoas que transitavam entre as pequenas mesas de duas cadeiras que enchiam o pequeno espaço.
Cheiro de azeite. Eu quase me perco o sentir o gosto trazido pelo cheiro. Me perco olhando o vazio, imaginando cidades de azeite, com árvores-oliveiras, rios oleosos, entre o verde-oliva, e o cheiro.
E de repente estou novamente no café, escrevendo a terceira folha de guardanapo. Olho para o espelho e vejo-me a me olhar escrevendo sem parar, como se houvesse um delay tão enorme na reflexão da luz do espelho, que o fizesse um anteparo entre presente e passado. E já não sei se sou o presente, a recomeçar o escrever de onde parei no espelho, ou o ato atrasado da imagem refletida anteriormente na superfície polida ao meu lado.
Junto as folhas espalhadas pela mesa e as guardo numeradas dentro de um livro da Anne Rice, que uso como suporte para escrever, na esperança de que fiquem esticadas e não rasguem.
Tiro umas moedas do bolso e pago meu café. Olho a pequena mesa ao sair, ao lado do espelho que corta uma ponta a outra da parede que é uma mistura de tons de creme, e o vejo sentado a me encarar. Barba por fazer, cabelos rebeldes.
Em sua mesa, muito mais papéis espalhados dos que levo numerados em meu livro. Em seu olhar nenhum sinal de que vá embora tão cedo.