quinta-feira, março 24, 2011

Março


Eram dias de chuva aqueles. Ele sabia bem que as chuvas de março não eram de escoar rápido.

Na verdade as chuvas de março enchiam suas galerias e traziam à tona o lixo, que vertia de seus bueiros e se acumulava mais e mais.

Ele era uma cidade grande, de vias expressas, semáforos e asfalto, de ruelas úmidas, com fumaças de cozinhas populares, de becos escuros com pedaços de cachimbo e latas de cola.

Tudo levado e lavado pelas chuvas de março.

Seus parques eram verdes, é verdade, mas mal cuidados e a prefeitura de seu corpo via-se as voltas com escândalos e problemas de engenharia.

Ele não perdia a cerveja da quarta, a noite tem futebol na tv. Não tinha time. Pensava no presente, vida mais-ou-menos. Dia trabalhando, padaria, pão, leite, presunto na volta pra casa. Televisão de um lado, chinelos de outro.

Cerveja fria, na segunda vinham àquelas idéias malucas, pensava que era uma cidade. Era cada pessoa e cada coisa de si-mesmo.

Si-mesmo era algo que lhe escapava. Si-mesmo surgia sempre lá por março, com as chuvas. Transbordava a si-mesmo pelas sarjetas de suas próprias galerias.

Cochilava no velho sofá que herdara dos pais, copo pela metade. Sonho doido. Ele era uma cidade.

As águas a escorrerem pelas ruas naqueles dias de março.

quarta-feira, março 02, 2011

Destino de carnaval

João não era carioca, era do Recife mesmo, mas descia a ladeira com o sapato branco impecável, o cordão de ouro fosco, quase preto, camisa aberta e fingia ser malandro. Óculos à la Stalone Cobra e palito de dente no canto da boca terminavam por compor o restante da vestimenta.

Podia se dar ao luxo de acreditar em sua fantasia, a vida dura e as horas de trabalho iram dar uns 4 dias de sossego. Derby no bolso, só um trago nesse calor infernal ao descer a ladeira para ir à casa de Joana. Pensava que era destino, essa história de nomes parecidos era coisa de novela para ele. Misturava frevo e samba, camisa já começando a ensopar, o som das troças ao longe. Para descer ladeira todo santo ajuda.

Na frente da casa de muro baixo via pela janela Joana a montar a fantasia de colombina. Cabelos presos em coque, boca vermelha, lágrima pintada no canto do rosto. Colombina de Olinda tem outras feições e feitiços.

A portinhola do muro escancarada a denunciar a fuga dos dois. Mãos dadas e risadas altas, Capibas e Elefantes.

Um malandro e uma colombina a andarem pelas ruas e vielas mudando de troça em troça, a olharem os prédios do alto da Sé. Beijo com sabor de tapioca de coco. Só no carnaval mesmo.

Amanhã ele de Arlequim, ela de rainha de bateria. No dia seguinte ele de homem das cavernas, ela de gueixa. Nunca acertavam na fantasia, só na alegria. Mas essa história de nome parecido, só podia ser destino mesmo. Não sabia o que isso queria dizer na verdade, mas repetia pra si a cada olhar, sem se incomodar com os empurrões, o desodorante vencido dos outros foliões, nem com o calor infernal.

Repetia para si, só pode ser destino. Destino de carnaval, é isso!

Não sabia o que isso significava, mas mesmo assim, era destino de carnaval.

Como se o destino do carnaval não fosse morrer em cinzas.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

[Momento Marketing] Ano novo, velhas tardes quentes e novidades.

Ano novo entrou de vez e não foi só o Layout do Blog que mudou. Agora o Tardes quentes pode ser encontrado no facebook e seu aplicativo pode ser baixado nos celulares da Nokia.

Agora dá pra ler o Tardes quentes de Outono com facilidade pelo celular. É só clicar no banner aqui no blog, ou procurar pelo aplicativo no OVI Store da Nokia. Ainda não criei aplicativos para outros celulares, mas quem não usar o Nokia pode acessar o blog diretamente do navegador do celular sem problemas.

A medida que forem surgindo novos aplicativos, ou novidades, estarei postando.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Supermercado, idosos e pássaros



Sete horas da manhã. Chinelos sendo arrastados pelos setores de hortifruti, empurrando o carrinho de compras, quase sem nada, tão leve.

Ah que a alma tivesse o peso do carrinho.

Lista na mão, o sono mal terminado na cabeça e milhões de bocejos. Hora de escolher as frutas.

O fato é que não sei escolher frutas, mas escolho mesmo assim, e quase nunca pego alguma, ou verde demais ou podre demais. As vezes presto mais atenção às pessoas que cruzam os corredores das cebolas com as beterrabas, ou aos que estacionam os carrinhos em fila dupla na avenida das hortaliças.

E eis que ele aparece. Danado do passarinho minúsculo, marrom, do tamanho do meu polegar, a olhar de um lado para o outro com pequenos trinados.

Por um milésimo de segundo, cheguei a ponderar sobre a falta de higiene e outras coisas incômodas, que pensaria uma pessoa rabugenta numa manhã de sábado no meio do supermercado, que a presença do passarinho trazia. Pelo menos até o segundo milésimo trazer a tona aquela figura, de um metro e meio, de trás de uma pirâmide de tomates.

Estava do lado do passarinho, olhando para os lados também procurando testemunhas de seu encontro com o pequenino. Sorriu. Seu rosto, já enrugado, dobrou-se por suas dobras. Parecia um menino. Surpreso com o encontro, como se houvesse encontrado amigo e outra época.

“Safado, veio fazer feira aqui também!”, parecia sair um balãozinho de sua cabeça.

Eu assistia calado, como em outra cena, a ver encontro tão inusitado. Acho que eu sorria também, não sei, afinal não fazia parte desse circulo de amizade. O papo deles parecia bom. Bons amigos botando a conversa em dia, quanta coisa para conversar.

Três segundos depois cada um rumava para o seu lado, inclusive eu aos bocejos. Acho que sorria também, não sei.

“Vou escrever sobre isso”, pensava eu, rumo às laranjas. Empurrando o carrinho cantarolava baixinho:

“... a ordem das árvores não altera o passarinho... tchu, tchu...”

Acho que sorria... sim sim, sorria.

terça-feira, janeiro 11, 2011

(Des)Conversa



- Calma, já passou.

- Mas ta doendo!

- Deixa ver aqui. É só pancada na canela, já já passa.

- Passa nada, ta doendo pra burro. Tem gelo?

- Não. Tem chave de fenda. Serve?

- Pra bater prego? Tem que ter cola senhor.

- Toma aqui dois, me volta um e meio e mais aquele passarinho. Pode ser?

- Só se me vier três e eu devolver canário e água.

- Fechado. A propósito, como está sua canela?

- Melhor do que o seu juízo.

sábado, janeiro 08, 2011

Correndo com tesouras

A vida à tarde toma um outro sabor. Às vezes à tarde os sabores se tomam de vida.

Relógio corre, antes das 10 já fez metade do que deveria fazer, ou pelo menos do que estaria marcado em sua agenda. Ele agenda os imprevistos. Estou correndo com tesouras.

Seus amigos continuam jovens enquanto envelhece ao sabor dos ponteiros, nem pode descansar pois fizeram um ninho em sua rede enrolada na parede.

Que surpresa, um ninho! Se ele não descansava pelo menos tinha alguém a usufruir a rede que seu pai havia ganhado de presente no dia de sua aposentadoria. Ficou com medo de mexer nele, ou de levar para alguma arvore por ai. Na verdade o ninho lhe lembrava seu antigo pinheiro, que acolhia diversos ninhos nos dias de janeiro.

Hoje não tem mais pinheiros, só as árvores em flor que tecem o caminho do canal do cavouco de carmim pelo qual passa com seu carro geralmente 10 quilômetros mais rápido que o permitido quando não há transeuntes. Poderia ter sido bombeiro, com certeza apagaria menos incêndios do que agora, mas era gordinho. Poderia ter sido artista a cantar, desenhar e escrever as mazelas e conquistas da vida, mas tinha que ganhar dinheiro.

Hoje ele entende o que Camus queria dizer, sobre transformar a vida em tragédia para dar sentido ao absurdo de existir, quando aos vinte e dois (?) não fazia a mínima idéia que tragédias poderiam servir para algo além do sofrimento. Suas tragédias não são gregas, não precisa furar os olhos, lutar contra esfinges. Ele decifra os enigmas do mundo enquanto corre no carro ouvindo Otto, Belle & Sebastian, ou qualquer outra música que toque no rádio, no ínterim de seus locais de trabalho, enfrenta as intempéries da vida de casal, das contas pra pagar, das desculpas por se atrasar para o jantar por estar trabalhando, suas epifanias não surgem dos embates com as Fúrias, mas da conversa sobre Clarice Lispector, Mafalda e Peanuts ao fim do expedientes.

As tragédias hipermodernas não precisam terminar em cavernas. Pra mim já basta aquele barzinho com as pessoas queridas a rir da vida e de nossas pequenas tragédias.

Estou correndo com tesouras. Rindo, ao sabor do vento. Tomando cuidado para não tropeçar.

domingo, dezembro 26, 2010

Cansaço



As palavras me escapam. Fico um tempo a olhar a barra piscando no computador, uma folha em branco a minha frente.

Me escapo às palavras enquanto escuto alguma música do Vince Guaraldi nos fones de ouvido.

A verdade é que estou cansado, o corpo já não acompanha a cabeça a alguns dias. Almoço de natal na padaria, jantar a dois com direito a peru e vinho, após voltar do trabalho. Trabalho, almoço em família e trabalho no dia seguinte. Mente a todo vapor em 2011, o corpo se arrastando, tentando chegar ao fim de 2010.

Pois a meta é a seta no alvo, mas o alvo na certa não me espera, nem espeta.

Irei passear no laguinho com mais calma da próxima vez, irei terminar o curso de francês da próxima vez, irei relaxar um pouquinho da próxima vez.

Já é domingo, 1:12h, estou feliz. Vou tomar toddynho e dormir. rs

Sei que, pelo menos esse ano, não vou ter de me preocupar com os espíritos dos natais passados, até eles precisam de descanso.

Vou guardar as ferramentas para amanhã, ando construindo rotinas, arquitetando e empreitando o cotidiano. Tanto o que fazer... que sono.

Na verdade eu queria era trazer um conto sobre as folhas de março, que forravam o chão de paralelepípedo da rua estreita. Lá tinha um garoto que costumava sempre descer a rua ao fim da tarde, trazendo sempre consigo as mesma..

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