quinta-feira, fevereiro 03, 2011

[Momento Marketing] Ano novo, velhas tardes quentes e novidades.

Ano novo entrou de vez e não foi só o Layout do Blog que mudou. Agora o Tardes quentes pode ser encontrado no facebook e seu aplicativo pode ser baixado nos celulares da Nokia.

Agora dá pra ler o Tardes quentes de Outono com facilidade pelo celular. É só clicar no banner aqui no blog, ou procurar pelo aplicativo no OVI Store da Nokia. Ainda não criei aplicativos para outros celulares, mas quem não usar o Nokia pode acessar o blog diretamente do navegador do celular sem problemas.

A medida que forem surgindo novos aplicativos, ou novidades, estarei postando.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Supermercado, idosos e pássaros



Sete horas da manhã. Chinelos sendo arrastados pelos setores de hortifruti, empurrando o carrinho de compras, quase sem nada, tão leve.

Ah que a alma tivesse o peso do carrinho.

Lista na mão, o sono mal terminado na cabeça e milhões de bocejos. Hora de escolher as frutas.

O fato é que não sei escolher frutas, mas escolho mesmo assim, e quase nunca pego alguma, ou verde demais ou podre demais. As vezes presto mais atenção às pessoas que cruzam os corredores das cebolas com as beterrabas, ou aos que estacionam os carrinhos em fila dupla na avenida das hortaliças.

E eis que ele aparece. Danado do passarinho minúsculo, marrom, do tamanho do meu polegar, a olhar de um lado para o outro com pequenos trinados.

Por um milésimo de segundo, cheguei a ponderar sobre a falta de higiene e outras coisas incômodas, que pensaria uma pessoa rabugenta numa manhã de sábado no meio do supermercado, que a presença do passarinho trazia. Pelo menos até o segundo milésimo trazer a tona aquela figura, de um metro e meio, de trás de uma pirâmide de tomates.

Estava do lado do passarinho, olhando para os lados também procurando testemunhas de seu encontro com o pequenino. Sorriu. Seu rosto, já enrugado, dobrou-se por suas dobras. Parecia um menino. Surpreso com o encontro, como se houvesse encontrado amigo e outra época.

“Safado, veio fazer feira aqui também!”, parecia sair um balãozinho de sua cabeça.

Eu assistia calado, como em outra cena, a ver encontro tão inusitado. Acho que eu sorria também, não sei, afinal não fazia parte desse circulo de amizade. O papo deles parecia bom. Bons amigos botando a conversa em dia, quanta coisa para conversar.

Três segundos depois cada um rumava para o seu lado, inclusive eu aos bocejos. Acho que sorria também, não sei.

“Vou escrever sobre isso”, pensava eu, rumo às laranjas. Empurrando o carrinho cantarolava baixinho:

“... a ordem das árvores não altera o passarinho... tchu, tchu...”

Acho que sorria... sim sim, sorria.

terça-feira, janeiro 11, 2011

(Des)Conversa



- Calma, já passou.

- Mas ta doendo!

- Deixa ver aqui. É só pancada na canela, já já passa.

- Passa nada, ta doendo pra burro. Tem gelo?

- Não. Tem chave de fenda. Serve?

- Pra bater prego? Tem que ter cola senhor.

- Toma aqui dois, me volta um e meio e mais aquele passarinho. Pode ser?

- Só se me vier três e eu devolver canário e água.

- Fechado. A propósito, como está sua canela?

- Melhor do que o seu juízo.

sábado, janeiro 08, 2011

Correndo com tesouras

A vida à tarde toma um outro sabor. Às vezes à tarde os sabores se tomam de vida.

Relógio corre, antes das 10 já fez metade do que deveria fazer, ou pelo menos do que estaria marcado em sua agenda. Ele agenda os imprevistos. Estou correndo com tesouras.

Seus amigos continuam jovens enquanto envelhece ao sabor dos ponteiros, nem pode descansar pois fizeram um ninho em sua rede enrolada na parede.

Que surpresa, um ninho! Se ele não descansava pelo menos tinha alguém a usufruir a rede que seu pai havia ganhado de presente no dia de sua aposentadoria. Ficou com medo de mexer nele, ou de levar para alguma arvore por ai. Na verdade o ninho lhe lembrava seu antigo pinheiro, que acolhia diversos ninhos nos dias de janeiro.

Hoje não tem mais pinheiros, só as árvores em flor que tecem o caminho do canal do cavouco de carmim pelo qual passa com seu carro geralmente 10 quilômetros mais rápido que o permitido quando não há transeuntes. Poderia ter sido bombeiro, com certeza apagaria menos incêndios do que agora, mas era gordinho. Poderia ter sido artista a cantar, desenhar e escrever as mazelas e conquistas da vida, mas tinha que ganhar dinheiro.

Hoje ele entende o que Camus queria dizer, sobre transformar a vida em tragédia para dar sentido ao absurdo de existir, quando aos vinte e dois (?) não fazia a mínima idéia que tragédias poderiam servir para algo além do sofrimento. Suas tragédias não são gregas, não precisa furar os olhos, lutar contra esfinges. Ele decifra os enigmas do mundo enquanto corre no carro ouvindo Otto, Belle & Sebastian, ou qualquer outra música que toque no rádio, no ínterim de seus locais de trabalho, enfrenta as intempéries da vida de casal, das contas pra pagar, das desculpas por se atrasar para o jantar por estar trabalhando, suas epifanias não surgem dos embates com as Fúrias, mas da conversa sobre Clarice Lispector, Mafalda e Peanuts ao fim do expedientes.

As tragédias hipermodernas não precisam terminar em cavernas. Pra mim já basta aquele barzinho com as pessoas queridas a rir da vida e de nossas pequenas tragédias.

Estou correndo com tesouras. Rindo, ao sabor do vento. Tomando cuidado para não tropeçar.

domingo, dezembro 26, 2010

Cansaço



As palavras me escapam. Fico um tempo a olhar a barra piscando no computador, uma folha em branco a minha frente.

Me escapo às palavras enquanto escuto alguma música do Vince Guaraldi nos fones de ouvido.

A verdade é que estou cansado, o corpo já não acompanha a cabeça a alguns dias. Almoço de natal na padaria, jantar a dois com direito a peru e vinho, após voltar do trabalho. Trabalho, almoço em família e trabalho no dia seguinte. Mente a todo vapor em 2011, o corpo se arrastando, tentando chegar ao fim de 2010.

Pois a meta é a seta no alvo, mas o alvo na certa não me espera, nem espeta.

Irei passear no laguinho com mais calma da próxima vez, irei terminar o curso de francês da próxima vez, irei relaxar um pouquinho da próxima vez.

Já é domingo, 1:12h, estou feliz. Vou tomar toddynho e dormir. rs

Sei que, pelo menos esse ano, não vou ter de me preocupar com os espíritos dos natais passados, até eles precisam de descanso.

Vou guardar as ferramentas para amanhã, ando construindo rotinas, arquitetando e empreitando o cotidiano. Tanto o que fazer... que sono.

Na verdade eu queria era trazer um conto sobre as folhas de março, que forravam o chão de paralelepípedo da rua estreita. Lá tinha um garoto que costumava sempre descer a rua ao fim da tarde, trazendo sempre consigo as mesma..

domingo, novembro 07, 2010

O velho



O velho, sentado na cadeira de balanço a olhar a rua do terraço. Os 89 anos pesam em seu corpo.

Colegial incompleto, faculdade da vida.

Diz por vezes que só espera a morte e traz uma leveza e delicadeza que destoa gritantemente das rugas, cicatrizes e manchas que embrutecem seu corpo. Os dedos inseguros e enormes, como feito de pedra, a passarem na testa enrugada indo até a nuca lisa.

O velho, dormindo na cadeira, arrebatado pelo sono trazido pelos ventos quentes das tardes de outubro. Já não deve mais caçar quimeras, nem se apavorar diante do futuro, como se seu corpo fosse muralha protetora para seu espírito sem ambições.

Uma vida tranqüila, filhos, netos. A riqueza de toda uma vida vivida em seu devido momento, todas as conquistas, hoje, não são mais do que as derrotas.

O futuro, que por vezes me aterroriza, e o passado que por vezes me assombra, não se refletem em seus olhos, que começam a serem tomados pela catarata. Ele sabe que o futuro se faz no presente e que o passado não tem poder sobre este, somente os fantasmas que trazemos conosco.

Aprendo com seu silêncio. Sentado na varanda, bocejo. A tarde, arde.

Até o próximo outono será uma eternidade.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Christmas Time Is Here...




Às vezes me pego lembrando dos natais passados. Dos natais quentes de verão tenho lembranças doces, daquelas que chegam com o cheiro da poeira de dias secos, que chega com a lembrança das rosas-meninas do canteiro que minha mãe havia plantado.

Algumas vezes ponho para tocar Christmas times is here e de repente estou lá, colhendo os gravetos junto com meus pais e meu irmão, para levar para casa e fazer nossa árvore de natal de galhos retorcidos, com aquelas bolas coloridas e frágeis, que mal podiam tocar o chão e se quebravam, tiradas cuidadosamente da caixa velha, lotada de enfeites de natal, que trazia o cheiro de natais ainda mais antigos.

Não comemoro o natal hoje em dia, acabo lembrando dele em outras datas. Procuro comemora minhas alegrias diárias, e algumas tristezas também, porque elas deixam as alegrias mais doces.

Hoje minha imaginação demora mais a alçar vôo, as vezes volto um pouco pra pegar impulso nos ventos das boas lembranças.

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