segunda-feira, março 16, 2015

Script (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz)


Devo lhe dizer que a vida é curta
 Que eu amei você e amei sem culpa
 Devo lhe dizer que a minha cura
 É você, meu bem 
É você, meu bem
 É você, meu benzinho 
Devo, posso, quero sentir
 Essa sensação de ter você na minha história 
Roteiro do meu gibi 
Revelado no meu álbum
 Rascunhado no meu peito 
Rabiscado nesse script 
Agora já estamos quites
 Já não há limites 
Não tem bem, nem mal 
Agora já não é o final
 E você meu bem 
Vai querer também 
Estrelar o meu filme
 Devo lhe dizer que a vida é um curta
 Que eu filmei você, foi sem censura 
Devo lhe dizer que a minha cura 
É você, meu bem
 É você, meu bem 
É você, meu benzinho

(Tulipa Ruiz)

domingo, fevereiro 08, 2015

Tempos modernos



Vivo sob o jugo de ser máquina. Da engrenagem que sustenta seu semelhante, gasto os dentes a impulsionar a outra roda.
Não vivo mais, opero. Meus erros obedecem à causas e consequências matemáticas. A máquina avança sempre, nunca questiona, nunca dúvida. A máquina, antes de tudo, é comandada, é operada pelo outro que a utiliza como mero instrumento para um fim.
Descartável. Findo meu prazo de validade, sem manutenção, escuto um "percebemos que o senhor já não vem dando conta do trabalho como antes".
O coração já não tem mais força para bombear o fluído que abastece músculos e vísceras. O chassi mole escorre, mostrando as deficiências do corpo, e a casa de máquinas, no sótão, já não governa a máquina sem emoções.

domingo, fevereiro 01, 2015

Carnaval ou Da passagem do tempo


  Espero por cada fim-de-semana como se fosse o último. Os dias que me restam são aqueles, os quais não sei quando irão se findar.
Espero como um folião a esperar o sábado de Zé Pereira. Meu coração sobe e desce ladeira aos passos loucos de sua própria batida ritmada.
Acendo um cigarro. Não espero pelo fim-de-semana exatamente. Porque sem ela o fim-de-semana não tem porquê.
Às vezes sou eu, a ir ao seu encontro. Às vezes o encontro se torna alheio à passagem do tempo.
Ela, uma vez, me falara que o tempo era eterno, que éramos uma pequena vírgula na eternidade, que não éramos mais do que um breve inspirar, na eternidade.
Eu espero, cozinho, escrevo. Reinverto a ordem das coisas e reinvento as horas, para que fôssemos eternos e o tempo, um mero inspirar de um beijo. Nosso beijo.
Sinto o calor que toma o apartamento, quase sem móveis. Apago meu cigarro e espero em silêncio, à escutar o som das alfaias em meu peito. 

quinta-feira, dezembro 25, 2014

As árvores




Naquela ilha, muitos anos atrás já esquecidos, era comum que os anciões, ao final da vida virassem árvores. Eventualmente davam frutos, ou pinhos secos. A espécie variava de acordo com o local onde fincavam raízes.
As árvores já eram velhas quando ele, menino, corria por entre seus pares, na antiga praça das mangueiras, onde os trabalhadores se reuniam para fazer greves ao final da ditadura.
O velho coreto, esquecido dos antigos festivais da praça, erguia-se deslocado da multidão.
Seus irmãos e ele perdiam a conta das vezes que correram e sentaram à sombra das árvores antigas. Esteve sempre correndo.  Tanto que estranhou quando passara a se perceber lento.
Passou a apresentar certa fixação nas árvores, e por vezes era visto falando que as árvores da praça das mangueiras sabiam a maioria dos segredos da ilha.
Tal foi a surpresa quando, ao lembrarem de que não o viam a quase um mês, se depararam com a casa abandonada de portas abertas, ao final do último bairro da ilha.
Muitos dos moradores ainda sentiam os olhos dos fantasmas recentes dos anos de chumbo, e um ou outro sumir havia se tornado algo quase comum. Sabiam que ele havia sido levado, não tinham dúvidas disso. Era um homem excêntrico, nos últimos anos.
Nem deram muita importância para os papéis esquecidos pelos cômodos da casa,  segredos e desenhos guardados de anos de observações. Tudo fôra para o lixo.
O que aterrorizava os demais era ver suas roupas em trapos rasgados, penduradas aos galhos de uma árvore ignorada, no meio do quintal da casa abandonada.
Não sobrara muito do velho terreno, a não ser a casa em escombros e uma velha árvore sem frutos a erguer-se em direção ao sol.

domingo, outubro 12, 2014

O lobo


Ele andava pelos escombros da velha construção.
Quando garoto não se atrevia a vir mais do que alguns metros dos muros que, à época, era o asilo dos insanos da cidade.
Seu avô, segundo seu pai, já passara temporadas longas naquele local, quando a loucura temporária lhe tomava os ossos e o fazia dançar uma dança frenética, sem orquestra e platéia. "Quando os diabos lhe tomavam o corpo" - dizia seu pai.
Ele pisava a grama, que brotava ir entre os rejuntes da cerâmica que cobria o chão dos pavilhões. A luz que entrava pela construção destelhada, mostrava as marcas das paredes, de épocas primevas, de antes dos seres humanos, dos alienígenas e alienistas.
Ia de pavilhão em pavilhão, os quais apontavam para o jardim central do asilo, onde ficava o busto de bronze  do velho alienista austero, que fundara o manicômio.
O silêncio, a luz e os pássaros, tomavam os espaços vazios de paredes solitárias. O diabo também o atentava, como ao seu avô, que não conhecia, senão pelos olhos de seu pai.
O diabo o atentara havia pouco. Este não lhe dera o dom dos movimentos frenéticos de uma dança louca, de ancestrais russos e africanos. A chaga que levava consigo tinha a cólera como insígnia. Praga de uma Baba yaga, que havia amaldiçoado o avô de seu avô, bem ao leste do oceano.
Ele queria dançar como o avô, marionete de fios de náilon de seus demônios. Então deu-se conta do sangue em suas mãos, pingando ainda fresco, diferente do carmesim que, coagulado e escuro, cobria seu corpo nu, ao centro do jardim abandonado, para onde convergiam os caminhos de cada pavilhão destelhado.
Ouvidas as sirenes ao fundo, quebrara-se o silêncio do velho sanatório. Os pássaros fugiram, revoltos, e então, como quem desperta de um transe, deu-se conta de si. Sorriu, com os dentes vermelhos.
Súbito virou o lobo e correu para o bosque, que margeava o asilo, com as patas a amassar a grama, sumindo por entre os arbustos.

........

                 Do depoimento colhido da Sra. Maria Quiteria  Costa - vizinha, sobre o caso do lobo de cidade das serras.

Mas o menino sempre foi tão bonzinho seu dotô, não dava trabalho pra ninguém.
[...] depois, coitado, só sobrou ele depois que o pai pôs fogo na casa. Criança fica estranha com essas coisas né? As veis dava medo, até os bicho corria do menino.
Eu não, eu já era mocinha quando o avô dele veio com a família pra cá. Tudo gente estranha, tudo raciado do estrangero. [...] foi mendigo fazia biscate na cidade vizinha.
Sim passava uns sete dia sumido por mês. Sei não dotô. Mas os bicho sumiram todos. Foi o lobo seu dotô. Não vi mais sei. Dizem que era um bichão, se fosse homem o padre não tinha aquelas marcas de mordida, nem a dona Carminha, ou Seu Lázaro. Foi o lobo Que matou moço.[...]
[...] mas ele era tão bonzinho dotô. Vivia com fome o bichinho,chega dava pena. Era doentinho o menino, caprichoso. Achava de gritar para a lua...
  

quarta-feira, outubro 08, 2014

Lira dos 30 anos (Com todas as licenças poéticas do mundo)




Catapimba, fiz trinta.
Assim rápido.
Com uma bagagem de história,
E contos nada didáticos.

Em prosa, sem forma
Traço linhas e parágrafos,
E até nesse trigésimo outono,
Eu me permito um regalo.

quarta-feira, outubro 01, 2014

Contos Argentinos - Patagônia



Olho, pela janela, o lago. São 8 horas e as luzes dos postes continuam acesas na penumbra. A chuva cai leve.
Sou novamente estrangeiro de mim mesmo, desse país devastado pela escravidão e as guerras civis do meu corpo. Olho por entre os pingos de chuva da janela. 
Estou novamente no barco, segurando o cavalo de brinquedo, talhado em madeira, junto ao meu pai e meu irmão, na neblina daquele lago da Patagônia. 
Mamãe ausente, papai jovem, com dois garotinhos. Meu irmão à brincar com a neblina ao seu lado, suas bochechas vermelhas, os cabelos loiros, eu segurado à barra de sua calça, com o cavalo de madeira na outra mão, de tês escura.
Ele contava da paisagem agreste, da Bahia à Pernambuco, de quando fizera teatro e pegou um ônibus cheio de freiras tagarelas. Quisera um dia ver a neve, e lá estávamos os três, perdidos na neblina, no barco que, em minha memória, estava vazio à deriva.
Olho a chuva crescente e penso que nunca regressei, à deriva na neblina.


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