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domingo, fevereiro 05, 2012

O último dândi - do arco "personagens efémeros do Recife Antigo"


Trilha sonora: Blues da Piedade - Cazuza
Não era um dândi, mas era um dissidente do vulgar. Elegante com certeza, ao se destacar da grande diversidade de pessoas completamente diferentes a andar pelas ruas de paralelepípedos e rastros de bonde de séculos atrás.
Não tinha muito dinheiro, isso era verdade, mas ele vivia da própria fantasia que todos temos de ser aquilo que, enfim, não somos somente.
Respirava músicas de Cazuza, sendo o assassinato da flor seu mantra diário. Nas noites úmidas de diversos sons ele caminhava pelos becos e ruelas que levavam por fim a praça do arsenal, e há quem dissesse que já o vira de cartola e bengala. Talvez no carnaval, afinal os bares de radiolas-de-ficha do antigo bairro não eram convidativos para alguém nesses trajes, embora se vissem jovens de negro e alguns de sobretudo suando horrores nas noites quentes do bairro.
Não era uma figura folclórica do antigo bairro decadente de prédios e sinagogas recém-restauradas. Não era como o vendedor de flores de papel ou a velha dos cachorros. Era quase uma presença desencarnada, daquelas que se percebem de relance quando se olha sem querer para o lado.
O último dos dândis em uma época em que a imagem pesa mais do que o conteúdo, em que o belo fere àquele que dele não deveria sentir uma única falta, onde as pessoas andam com espelhos à face, olhando em todas as direções.
Há quem diga que o já viu tomando uma cerveja em frente ao antigo Cabaret, ou que já o viu ter o braço carimbado para entrar nas antigas festas que tocavam músicas dos anos 80 na velha panquequeria após a maia-noite, ou que já o vira sentado defronte para o monumento fálico do cais, cantado Blues da Piedade enquanto esperava pelas cinco horas da manhã para pegar a condução para casa.
Mas já faz muito tempo. Tempo da morte da velha dos cachorros e da grande maioria das figuras imaginárias que povoavam as ruas que hoje só ficam cheias nas feiras de domingo. Dizem que era uma mulher, que de perto não tinha como se confundir, mas na verdade ninguém dá à mínima, como não damos a mínima praquilo que não nos faz falta.
A noite chega, os casarões fecham suas portas. Fiteiros e pessoas na rua. De longe o som de uma ou duas alfaias. Chão de paralelepípedos com trilhos de bondes que não circulam a muitas décadas. Levaram todos.

terça-feira, novembro 10, 2009

Jazz



Fim de semana, festival de jazz na Torre Malakoff. Esposa, irmão, amigos, música boa....
Já não desenho, nem fotografo a meses, e nem tenho tido muita energia pra nada. Leio, leio e não saio do lugar. Sou um mal-agradecido.
Ouço trompetes, enquanto canto no chuveiro. Ah que calor!
Ainda prefiro sentar na rede da varanda e tomar meu café quando acordo sem sono, sentindo o sol chegar lá pelas quatro e meia, cinco horas.
Consigo pensar em nada, nessas horas um gole de café. Vazio, e sinto o frio da madrugada ir embora. Fico com sono logo, logo.
Volto a dormir e ainda escuto trompetes distantes.

Trilha Sonora (escute enquanto lê):
So What – Miles Davis e John Coltrane
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