quarta-feira, janeiro 18, 2012

Irmãos em linha reta

Arquivo Pessoal

Trilha Sonora: Mother Goose - Jethro Tull

Estou dirigindo pela avenida em linha reta. Escuto Jethro Tull e Joan Baez com meu irmão ao lado.
Pergunto quando vamos montar finalmente a Blues Brothers Company para tocar-mos versões do Jethro Tull e violão e flauta transversal somente, então ele ri e diz que eu é que não chamo pra ensaiar.
Janelas abertas, o vento bate enquanto conversamos sobre sobreposições musicais em harmonia. Rimos de nós mesmos, como se não nos víssemos há muito tempo. Realmente não nos vemos a tempo. Não vivemos mais no passado.
Somos irmãos, estrangeiros em uma cidade que nos acolheu e nos ensinou muito, ainda ensina. Acelero o carro em linha reta, escutamos Mother Goose, Boureé, Locomotive Breath, The Whistler.
Conversamos digressões em cima de digressões, como se a vida não fosse feita de bifurcações de bifurcações anteriores. Digo pra ele ter cuidado quando for trabalhar de bicicleta. Ele conta sobre os banhos de lama que já tomou dos carros em dias de chuva. Eu rio.
Estou lhe dando uma carona para casa, ele me dá aulas de folk music. Logo estamos falando das intemperanças das nossas histórias, dando voltas nessa coisa que tende a se repetir, nesse eterno retorno do que se perde nas entrelinhas das histórias de todos nós.
Chegamos, apertamos as mãos e recebo um obrigado.
Ensaio marcado nesse sábado.

terça-feira, janeiro 03, 2012

A menina e a mariposa*


Arquivo pessoal



Ela continua com medo de mariposas... mariposas enormes e apavorantes... talvez as mesmas mariposas que a perseguiam quando criança... mariposas que entram pela janela do seu quarto.
Ela ri ao contar isso... já não é a menina que corria das mariposas...
As mariposas, hoje, assumem outras formas...
Trovões, trovões... nenhuma chuva vem... isso é normal? Os trovões não me metem tanto medo assim... mais medo dão as expectativas que ela tem.
E nessa brincadeira de seguir em frente, ela encontra suas mariposas... quando sai o resultado do vestibular?... e nesse carnaval?... fantasia-se de pierrot ou arlequim?
Bobagens, isso é só parar rir. Imagine-a fantasiada, com certeza seria engraçado, engraçado como seus trocadilhos e sarcasmos difíceis de entender, que ela, vez por outra, tem de explicar e acaba por ficar mais engraçado do que se fosse entendido.
Uma pílulazinha aqui pra melhorar o humor, outra ali para que seu corpo funcione direitinho... lamenta-se por não poder doar sangue e disserta uma breve aula sobre fatores Rh e eritroblastoses fetais... quem não se divertiria com essa pequena aula de biologia?
Ela o encontra, fala com ele, sobre ele, diz o que sente para ele... e aos poucos vai percebendo que harmonia não consiste em uma estabilidade imutável, mas sim numa instabilidade que se auto-organiza... e ela aprende mais sobre si e sobre ele... porque tudo o que ela passa serve de aprendizado, embora, algumas vezes, ela não perceba.
Aprendizado para o futuro. Para no futuro voltar a ver e dizer o que sente ao primeiro homem que a beijou e lhe pegou nos braços... para, no futuro, lembrar das mariposas que entravam pela sua janela. Mas, por enquanto, ainda é futuro.
No presente ela toma café com sua mãe otimista, que leva a vida entre bombardeios de filosofias e assuntos vestibulares... conversando com ela e vivendo pequenos momentos ao lado dela, que vez por outra, esquece como é especial. O cotidiano nos prega essas peças mesmo.
Ela me contou uma vez que tinha medo de mariposas, e eu ria.
Uma das últimas mariposas que a perseguiu estava tentando tomar suas palavras, e ela tinha medo de não poder escrever mais. Mas mariposas não podem roubar palavras. Talvez ela tenha roubado um pouco de sua visão, agora que olhava as palavras que escrevia e que não mais gostava. Mas os olhos que se deve usar nesse caso são outros...
Ela, talvez, tenha cobranças demais, por parte dela, por parte dos outros. Vi num documentário que as mariposas sentem o cheiro das cobranças, porém no mesmo documentário falava das compreensões das mariposas. Dizem que as mais assustadoras são as mais compreensíveis.
Que surpresa seria quando a mariposa novamente entrasse pela janela do seu quarto e ela dissesse: “Você me mata de medo mariposa! Por que você faz isso?” e a mariposa retrucasse: “Me desculpe. Eu não sabia que você se sentia assim. Na verdade você nunca tinha dito nada, só saía correndo quando eu a encontrava”.
“Então você não vai me fazer mal?”.
“Não, de forma alguma. Nunca foi minha intenção”.
Que surpresa seria encontrá-la na cozinha, tomando café e conversando.
E, ao final da conversa, a mariposa a perguntar se poderia visitá-la novamente, enquanto ela, meio receosa: “Tudo bem... só avisa antes da próxima vez, ta? Ah, sim! E pode usar a porta da frente”.

*Texto de 2006, publicado no antigo Tardes Quentes de Outono

sábado, dezembro 31, 2011

Nos vemos em 2012

Fim-de-ano a poucas horas de vir.
O Tardes Quentes de Outono deseja um ano novo com muita paz para todos.
Obrigado a todos os que deixaram um pouquinho de si por aqui, esse blog é para vocês.

Abraços carinhosos

terça-feira, dezembro 06, 2011

Recife de lembranças



Trilha Sonora:
As ruas do Recife me lembram Dublinenses...
Dos prédios altos do centro por onde a luz do sol se infiltra criando aquela bolha de calor que se mistura aos cheiros do que escorre pelos bueiros, caminho me atrevendo, de vez em quando, a olhar para o alto e imaginar as histórias por trás de cada janela dos prédios antigos que levam a uma das pontes que cruzam o Capibaribe.
Milhares de pessoas e suas histórias pessoais se cruzam na Boa Vista... eu no meio. No meio de histórias que são um pouco minhas também, de sofrimentos e alegrias que não são meus.
Sentado ao píer do marco-zero defronte ao monumento fálico de Brennand, olho o navio ancorado perto dos armazéns, enquanto o vento assanha ainda mais meus cabelos... um terral que precede o chover. Já vi alguns sois nascerem por lá antes de percorrer as pontes e pegar o ônibus pra casa, cantarolando uma música ou outra.
Caminho pelas ruas de Casa Forte com meu irmão, revejo meu nome na Madalena e passo algumas noites na Cidade Universitária. Observo tudo com um ar de novidade, por vezes com uma sensação de estranheza do mundo, como caminhar pelo MASP, pelo mercado público de Porto Alegre ou alguma praia de Natal. Tudo novo de novo.
Sento em um dos bancos em frente ao lago da universidade federal e como pipoca, rindo das bobagens da vida cotidiana, nostálgico das minhas histórias, pequenos pedaços compartilhados com os amigos: aquela volta pra casa, com o carro cheio, cantando Belle e Sebastian com Carol; à tarde desenhando o livrinho infantil com minha esposa, Lula e Thais; as conversas na livraria cultura com Marcinha; aquela internação de urgência que fiz com Silvinha e que rendeu boas risadas depois de todo o sufoco; as noites por vezes solitárias no recife antigo madrugada adentro passadas pelos lugarzinhos undergrounds que hoje já não existem; o fim de festa no Garagem; as sessões de cinema francês da Fundaj discutidas posteriormente com Renatinha e Pepel... minha rede na varanda e os aviões que teimam em sobrevoar meu prédio.
Por vezes me perco em minhas memórias só para depois me surpreender ao me encontrar nas linhas que escrevo.



sexta-feira, novembro 04, 2011

A bicicleta




Era velha, caloi vermelha parecida com uma monareta. Tinta riscada.
Mas me levava pelo mundo afora, pelas ladeiras de paralelepípedo, de vez em quando fugindo de algum cachorro, de vez em quando empurrando quando furava a câmara de ar do pneu.
Das tardes quentes que passava na casa do meu avô, sobram lembranças amareladas, com cheiro de terra seca levada pelo vento. A bicicleta encostada a convidar um passeio por Pernambuco, ou pelo corredor de caraibeiras da rua que dava na igreja de São Francisco, forrando o chão de amarelo, nas mesmas tardes em que o calor traz toda aquela moleza, um entorpecimento gostoso que só é afastado pelas gotas de suor que brotam no rosto.
Poucos cruzeiros no bolso e o mundo todo aos meus pés.
Uma volta no quarteirão era o bastante para trazer notícias de terras distantes, enfrentar os maiores desafios, fugir de alguns cachorros e chegar a tempo para lanchar e receber carinhos da família.
Tomo mais um gole de café na varanda de casa, respiro fundo... é manhã, o sol ainda a se levantar preguiçoso. Lembro de uma música que meu amigo escreveu sobre uma bicicleta. Acabo por passar o dia cantarolando ela, só pra ir deitar ao fim do dia cansado... bocejando, falando com meus botões: é.. acho que vou comprar uma bicicleta... isso... vou comprar... vou... Zzz  


Veja só - Castor Luiz

domingo, outubro 23, 2011

O gato



Que ele atravessava os umbrais das casas era bem verdade. Negro à noite, cinzento ao amanhecer e cor de cobre, ahhh cor de cobre, ao entardecer.
O gato era senhor de seus territórios. Às vezes de alguns humanos.
Se perguntassem seu nome, poderia dizer desdenhosamente que não tinha um, que somente criaturas ignorantes precisariam de nomes para saber quem são. Ele era simplesmente ele.
O gato certa vez, ao atravessar a soleira de uma porta (que para os gatos podem ser as mais diversas), havia encontrado uma pequena criança ao entrar no limiar. O limiar era extenso, e não era raro encontrar as mais diversas coisas ao passar por ele.
Ela particularmente cruzava o limiar a muito tempo, tempo suficiente para não se surpreender com as coisas que via por lá antes de chegar ao próximo umbral, geralmente de alguma casa velha. As casas velhas possuíam as melhores entrada para o limiar.
Vez por outra o limiar costumava sugar coisas frágeis para si, o gato sabia bem. Mas uma criança era tão rara naquelas instâncias quanto encontrar algum deus antigo em meio à metrópole.
Seu pelo ia de cobre a negro quando voltou à velha casa apodrecida do bairro. Precisou esperar um pouco até os jovens, que se drogavam do lado de dentro do muro baixo, saírem antes de passar a soleira e caminhar até o quarto da avó, sentada na poltrona mofada a espera de algo que já não se lembrava mesmo quando era viva.
Avó – falou o gato, pondo um filhote de camundongo no chão, fitando os buracos escuros do que já haviam sido olhos castanhos reais. Não falou mais nada.
Ela ajeitou os cabelos, cujos fios teimavam em alçar vôo, como quando se está em baixo d’água e os cabelos tomam vida própria. Explicou-lhe que houvera uma época em que milhares de crianças freqüentavam o limiar, muito tempo atrás.
Contou que elas não precisavam das soleiras, as quais as demais criaturas usavam rusticamente para tal função. Cabia a elas o desbravamento do limiar, mesmo que por um curto período de tempo, antes de precisarem de um nome para se reconhecer.
Por isso não nos lembramos do que se passa antes dos dois anos- sorriu a avó mostrando os dois únicos dentes inferiores e protuberantes na gengiva. Hoje, meu filho, elas passam pelo limiar sem perceber, provavelmente você não a verá nunca mais- sorriu novamente.
A cauda fina do filhote se contorcia em sua boca, enquanto ele abocanhava o que sobrara de seu corpo, sempre a fitar a avó.
Esse será mais um segredo para você- disse em sua voz rouca a apontar o dedo em sua direção.
O gato tinha uma coleção de segredos, como tinha a maioria dos de sua espécie. Na verdade sua espécie era feita do mesmo material dos segredos, daí sua furtividade.
Cruzando a soleira seguinte apareceu no parque, bem ao longe de onde os mendigos costumavam dormir. Ele reconhecia bem o lugar, um dos poucos onde havia um parlamento das árvores, cada vez mais raros, mais raro até do que crianças pequenas no limiar. Havia outros gatos, também chamados ao parlamento.
Caminhou por entre as árvores, cansadas, longe do esplendor que costumavam passar em tempo idos. Não era de sentir pena.
Algo estava para acontecer, mais e mais gatos chegavam a pequena clareira circundada pelo parlamento.
Esticou-se desconfiado. De súbito correu em direção ao enorme tronco do que havia sido de uma jaqueira antiga. Cruzou a raiz exposta que formava uma meia-lua na grama e sumiu.
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