Havia
sonhado com pássaros. Havia sonhado com grades e pessoas também.
De
repente, acordava sozinho no meio da noite e andava pelos quartos do
apartamento, sem medo, e passava poucos instantesa olhar a rua, de madrugada, antes de voltara
dormir.
E
antes de dormir dizia o seu próprio nome baixinho para a noite.
Havia
sonhado com os pássaros, por ter medo deles. E lhes disseram que não temesse,
pois iam de comer os cupins que faziam moradia em sua cama...
O
doutor era gordo e tinha aquele ar bonachão que odiávamos, mas nos “consultávamos”
com ele toda semana.
O
bom doutor sabia deixar a gente feliz, embora essa felicidade não durasse muito
até o mês seguinte. A felicidade que comprávamos dele era bastante cara, por
assim dizer.
E
por assim dizer saíamos às ruas à noite, todos nós, felizes, bastante. E
este que vos escreve era o muitomuitomuitomuitomuito
mais feliz de todos, caminhando pela rua de paralelepípedos molhados e de poças
enormes da cidade velha. Porque era lá que todos nós íamos, fingindo ser
adultos e independentes, e felizes.
Presos
em uma rotina diurna de famílias e estudos, esperávamos a noite chegar para
vestir nossas platis e rumar para a
cidade velha, que nada mais era do que um bairro decadente da cidade, que não
se importava muito com o que faziam lá os nadsats,
desde que gastassem um pouco com o vinho barato, cerveja quente e pequenas
alegrias, dos que ainda moravam nos casarões abandonados e faziam deles
pequenos pontos de encontro com música todos nós, que andávamos em bandos,
mentindo uns para os outros sobre quem realmente éramos.
E
chovia bastante naqueles dias. Sim meus irmãos, chovia muito nas docas do
bairro velho, e era maravilhoso esquentatar
o frio da chuva com aquele vinho velho que nossos pais não aguentariam nem
cheirar. Ingerindo cada vez mais doses de felicidade.
Havia,
naquele tempo, uma trégua não declarada entre todos nós. Bastava olhar para o
chão e ver passar apressadamente um mar de chinelos, coturnos, tênis, plataformas
e sapatos lustrosos. A guerra acontecia contra os que dormiam silenciosamente
no outro lado da ponte, que era a única forma de chegar ao bairro de sobrados e
ruas de paralelepípedos, escuras e húmidas, que desembocavam nas docas.
Mas
ai aconteceu, meus irmãos. O primeiro bonde passou exatamente às duas horas da
manhã, vindo do nada e indo para sejaláondefor, e claro que houve quem subisse
no bonde e fosse embora neblina adentro, pitando e cantando até não serem mais
vistos. Eu não havia dito antes, mas as ruas tinham marcas antigas dos bondes
de outrora.
Foi
ai que começaram os desaparecimentos. Mas não dávamos à mínima, na verdade. Que
se foda - pensávamos. Desapareça quem queira.
Eu
estava lá e o vi passar vazio, na semana seguinte, e ninguém o pegou dessa vez.
E na semana seguinte a esta, havia uma conversa carregada pelo vento de grupo
para grupo, uma razdraz de que os desaparecidos estavam a convidar a
todos. Então perguntei a um vek malenk
que tinha cabelos tingidos de verde e bebia em uma mesa junto a nossa, de onde
procediam as conversas absurdas sobre os desaparecidos,
então o pequenino olhou para mim com seus olhos de cores diferentes e começou a
govoretar uma histéria sobre o velho bonde levar ao nosso derradeiro encontro.
-
Eu soube que lá eles estão a festejar eternamente e que o tal convite dizia que
aqueles seriam os últimos salvo-condutos para nós – falava o pequenino de olhos
diferentes. – Obrigado irmão – dissemos, eu e os demais, a nos olharmos na nossa
própria mesa.
E
tiveram mais desaparecimentos, claro que haveria de ter.
Não
se viam mais tantos maltchikviks a
noite, de forma que os que não aceitaram os convites reiterados dos desaparecidos ou que deixaram de vir à
cidade velha à noite por medo ou pela, agora, hipervigilância dos starres responsáveis pelos seus
filhinhos (que nada mais era do que o medo de ter sua tutela investigada e
punida pelo Estatat), formaram
pequenos grupos de druguis e
declararam o fim da trégua.
E
vosso escritor, que não era dado à ultraviolência, havia tomado sua decisão.
Porque não dava mais para ficar mais muitomuitomuitomuitomuito
mais feliz do que todos, sem correr o risco de ter a gorlo perfurada por alguma britva,
sem mais nem menos. Eu precisava de suprimento.
O
doutor ficara animado com minha última visita, pois não havia mais tantos maltchikviks a procurá-lo atrás daquela
deliciosa felicidade que podia ser diluída com qualquer coisa. Seus olhos
brilhavam e ele esmekeava como uma babushka, enquanto dizia ao seu bom e
velho cliente que o resto era por conta da casa, e que eu poderia dizer aos
demaisque o bom doutor sempre tinha
um bom desconto para seus druguizinhos.
Na
mesma noite, na cidade velha, eu esmekeava
gromki, para mim mesmo, mesmo sem estar feliz (se é que vocês me entendem),
atento para algum bratchni querendo
ver quanto króvi poderia tirar a sua noja. Mesmo assim esmekeava, parado em uma das antigas estações que já não existiam
mais, olhando a neblina que vinha das docas, por volta das duas horas.
E
eis que, para minha noite perfeita, parara ao meu lado uma devotchka horrorshow, também a esperar o velho bonde da cidade
velha, com promessas se uma noite interminável daquilo que não éramos nós mesmos.
Então
ouvimos o sino. E lá estava ele, parado sem condutor. – Você não vai subir? –
perguntou a devotchka, com uma goloz deliciosa me videando com seus olhos contornados de lápis preto.
Eu
olhava para a ponte, meus irmão. Eu queria muito mais. E, se esse era realmente
o último salvo-conduto, não iria, seu bom narrador, odinoki para sejaláondefor.
O
futuro guardava muita coisa ainda por vir naquela primavera do outubro.
E
eu me lembrei de você, ó maninha, porque aqui já não estava e deixara muita
saudade aos teus amigos, com os quais me encontrava quase que diariamente.
Então
olhei ao redor e rezei, ó maninha. Para quem, não sei, porque não acreditávamos
nos deuses, mesmo sabendo que todos eles existiam nos pormenores daquilo que
ignorávamos. Pedi por proteção para nossa mãe.
Voltando pelo corredor de árvores em
flor, também me lembrei de mim e da conversa que tive sobre os avanços da
tecnologia e de como éramos povos primitivos em um futuro-presente.
Da
incompatibilidade das lembranças dos nossos filhos e das nossas próprias, do Homo
sapiens sapiensque não reconhece a si mesmo em nós primitivos,
de valores e lembranças primevas perdidas.
E,
cansado da labuta, da luta pela sobrevivência sentei na varanda, a coçar a
barba por fazer, sem pensar em nada. Olhei os gatos a andarem sobre os telhados
das casas.
Acendi
um cigarro escondido e brindei a você e a todos os demais entes queridos que, a
bem da verdade, nunca se foram.
Arrumo
minhas malas no meio da noite, não tenho sono. Separo um par de Allstar confortáveis.
Minha
esposa me conta como tem medo de aviões e eu falo, em vão, sobre taxas de
acidentes. Toca uma música antiga do Goldfrapp
e eu respiro fundo, estou de partida.
Talvez
já tenha partido alguns dias antes, ficando só para me despedir dos amigos,
esperando ouvir desejos de um retorno bom, porque no fundo também tenho medo,
mas não de avião.
Separo
Deuses Americanos para ler na viagem
e salvo a Tábua de Esmeraldas para
ouvir, talvez o álbum daquela música do Goldfrapp.
Ela
dorme enquanto fumo um cigarro na varanda, olhando a vida noturna dos gatos do
bairro, na madrugada do domingo pra segunda.
Fiquei
de dar um abraço no meu irmão amanhã, de almoçar com a minha irmãzinha, de
dizer tchau para os amigos.
Porque
pensava que poderia voar, acreditara estar acima dos erros.
Sua
queda foi enorme, e os que viram o corpo celeste ao longe se deliciaram e
tiraram fotografias da queda.
Em
chamas a cair. Da cidade prateada, passando por Hades, continuando à
cair.
As
Fúrias a rirem da queda, lamentado por não tomarem parte dela, por não serem à
elas atribuídas as dores do corpo celeste, que também era homem.
Eu
também estava lá, no frio da noite olhando a chuva de meteoros a convite de
minha amiga, que morava na fazenda vizinha. Fotografei com a velha câmera zenit
de papai.
Sentado
na cerca eu vi a queda dos seus sonhos, dos erros que mais tarde eu adulto
também cometeria. Porque assim somos feitos das poeiras das estrelas, e
entraremos, mais cedo ou mais tarde no Hades, e porque errare humanum est.