A vida à tarde toma um outro sabor. Às vezes à tarde os sabores se tomam de vida.
Relógio corre, antes das 10 já fez metade do que deveria fazer, ou pelo menos do que estaria marcado em sua agenda. Ele agenda os imprevistos. Estou correndo com tesouras.
Seus amigos continuam jovens enquanto envelhece ao sabor dos ponteiros, nem pode descansar pois fizeram um ninho em sua rede enrolada na parede.
Que surpresa, um ninho! Se ele não descansava pelo menos tinha alguém a usufruir a rede que seu pai havia ganhado de presente no dia de sua aposentadoria. Ficou com medo de mexer nele, ou de levar para alguma arvore por ai. Na verdade o ninho lhe lembrava seu antigo pinheiro, que acolhia diversos ninhos nos dias de janeiro.
Hoje não tem mais pinheiros, só as árvores em flor que tecem o caminho do canal do cavouco de carmim pelo qual passa com seu carro geralmente 10 quilômetros mais rápido que o permitido quando não há transeuntes. Poderia ter sido bombeiro, com certeza apagaria menos incêndios do que agora, mas era gordinho. Poderia ter sido artista a cantar, desenhar e escrever as mazelas e conquistas da vida, mas tinha que ganhar dinheiro.
Hoje ele entende o que Camus queria dizer, sobre transformar a vida em tragédia para dar sentido ao absurdo de existir, quando aos vinte e dois (?) não fazia a mínima idéia que tragédias poderiam servir para algo além do sofrimento. Suas tragédias não são gregas, não precisa furar os olhos, lutar contra esfinges. Ele decifra os enigmas do mundo enquanto corre no carro ouvindo Otto, Belle & Sebastian, ou qualquer outra música que toque no rádio, no ínterim de seus locais de trabalho, enfrenta as intempéries da vida de casal, das contas pra pagar, das desculpas por se atrasar para o jantar por estar trabalhando, suas epifanias não surgem dos embates com as Fúrias, mas da conversa sobre Clarice Lispector, Mafalda e Peanuts ao fim do expedientes.
As tragédias hipermodernas não precisam terminar em cavernas. Pra mim já basta aquele barzinho com as pessoas queridas a rir da vida e de nossas pequenas tragédias.
Estou correndo com tesouras. Rindo, ao sabor do vento. Tomando cuidado para não tropeçar.
As palavras me escapam. Fico um tempo a olhar a barra piscando no computador, uma folha em branco a minha frente.
Me escapo às palavras enquanto escuto alguma música do Vince Guaraldi nos fones de ouvido.
A verdade é que estou cansado, o corpo já não acompanha a cabeça a alguns dias. Almoço de natal na padaria, jantar a dois com direito a peru e vinho, após voltar do trabalho. Trabalho, almoço em família e trabalho no dia seguinte. Mente a todo vapor em 2011, o corpo se arrastando, tentando chegar ao fim de 2010.
Pois a meta é a seta no alvo, mas o alvo na certa não me espera, nem espeta.
Irei passear no laguinho com mais calma da próxima vez, irei terminar o curso de francês da próxima vez, irei relaxar um pouquinho da próxima vez.
Já é domingo, 1:12h, estou feliz. Vou tomar toddynho e dormir. rs
Sei que, pelo menos esse ano, não vou ter de me preocupar com os espíritos dos natais passados, até eles precisam de descanso.
Vou guardar as ferramentas para amanhã, ando construindo rotinas, arquitetando e empreitando o cotidiano. Tanto o que fazer... que sono.
Na verdade eu queria era trazer um conto sobre as folhas de março, que forravam o chão de paralelepípedo da rua estreita. Lá tinha um garoto que costumava sempre descer a rua ao fim da tarde, trazendo sempre consigo as mesma..
O velho, sentado na cadeira de balanço a olhar a rua do terraço. Os 89 anos pesam em seu corpo.
Colegial incompleto, faculdade da vida.
Diz por vezes que só espera a morte e traz uma leveza e delicadeza que destoa gritantemente das rugas, cicatrizes e manchas que embrutecem seu corpo. Os dedos inseguros e enormes, como feito de pedra, a passarem na testa enrugada indo até a nuca lisa.
O velho, dormindo na cadeira, arrebatado pelo sono trazido pelos ventos quentes das tardes de outubro. Já não deve mais caçar quimeras, nem se apavorar diante do futuro, como se seu corpo fosse muralha protetora para seu espírito sem ambições.
Uma vida tranqüila, filhos, netos. A riqueza de toda uma vida vivida em seu devido momento, todas as conquistas, hoje, não são mais do que as derrotas.
O futuro, que por vezes me aterroriza, e o passado que por vezes me assombra, não se refletem em seus olhos, que começam a serem tomados pela catarata. Ele sabe que o futuro se faz no presente e que o passado não tem poder sobre este, somente os fantasmas que trazemos conosco.
Aprendo com seu silêncio. Sentado na varanda, bocejo. A tarde, arde.
Às vezes me pego lembrando dos natais passados. Dos natais quentes de verão tenho lembranças doces, daquelas que chegam com o cheiro da poeira de dias secos, que chega com a lembrança das rosas-meninas do canteiro que minha mãe havia plantado.
Algumas vezes ponho para tocar Christmas times is here e de repente estou lá, colhendo os gravetos junto com meus pais e meu irmão, para levar para casa e fazer nossa árvore de natal de galhos retorcidos, com aquelas bolas coloridas e frágeis, que mal podiam tocar o chão e se quebravam, tiradas cuidadosamente da caixa velha, lotada de enfeites de natal, que trazia o cheiro de natais ainda mais antigos.
Não comemoro o natal hoje em dia, acabo lembrando dele em outras datas. Procuro comemora minhas alegrias diárias, e algumas tristezas também, porque elas deixam as alegrias mais doces.
Hoje minha imaginação demora mais a alçar vôo, as vezes volto um pouco pra pegar impulso nos ventos das boas lembranças.
Aonde vais ninguém sabe. Talvez ao mesmo local aonde vai a fumaça que sai pelos meus dedos nos dias de chuva. Lembro da filha do feiticeiro que morava no fundo do mar. Lembro de não saber aonde ias, agora que sou jogado ao mar, em forma de peixe. Nado sem rumo. Pelas minhas guelras, não só o oxigênio filtro da água salobra, mas todas as lembranças da última semana, dos amigos que deixei sem notícias minhas, das inseguranças geradas pela falta de compreensão, daquela velha canção religiosa que meu pai cantava para que eu dormisse quando pequeno. Nado fundo por já ter corrido o mundo como lebre e por já ter voado sobre os famintos, como ave. Logo estou pendurado no grande candelabro, como bobo-da-corte, como na lenda viking, em que os milhares de peixes aparecem voando e se tem que descobrir qual deles comera o coração. O dedo de minha mãe apontado para as gravuras, o som de sua voz ao falar os nomes dos personagens sem sotaque a ecoar na caverna pintada que guardava todo o alimento do mundo. Aonde vais, ninguém sabe, tanto quanto eu. Tanto quanto afundo mais na água escura, ínfimo a me perder no oceano. Cachalotes me sobrevoam, gritando seus nomes. Talvez a sigam, talvez gritem seu nome. Aonde vamos ninguém sabe. Nem ao menos nós. Nós nas cordas que nos atam uns aos outros. Outros rumos possíveis de tomarmos. Deus pôs um sorriso no seu rosto, pelo menos na última vez que te vi. Peixe. Nado a fundo cada vez mais. Trevas com tons de azul e esmeralda, sinto a água gelada em minhas escamas. Vejo algo. Cada vez mais próximo. Espere... estou vendo melhor. Sim, sim...
Trilha sonora:ponha a trilha sonora do post ao ler
As árvores sempre me têm histórias para contar, sempre que passo por aquela ruela, que cruza a universidade católica. Quanta sabedoria. Demorei anos para compreendê-las.
Uma delas disse que meu pinheiro mandou lembranças.
Na minha antiga casa, tinha um pinheiro no quintal de concreto, o qual cumpria as funções de árvore de natal durante as festividades e casa de pássaros no resto do ano.
Em casa havia a lenda de que se o pinheiro passasse da altura do cume da casa, alguém nela morreria. Se era verdade ou não, o fato era que papai sempre deixava o pinheiro um metro abaixo do cume da casa.
Eu ainda não entendia o que elas falavam nessa época. Não chegavam a ser palavras e eram jogadas ao sabor do vento como pólen.
Elas também tinham suas próprias lendas sobre nós, mas isso elas não contavam. Algumas delas serviam como portais para certos lugares e muitas vezes, à noite ou em locais desertos, algumas coisas as atravessavam para o lado de cá.
Antigamente, na época do avô do meu avô, eram mais freqüentes essas coisas acontecerem. Eles não se davam muita importância, embora soubessem da existência um do outro.
Quando garoto, meu avô achava estranho que seu pai sempre deixasse um pacote de rolo de fumo na soleira da casa a cada lua cheia que fosse precedida pela chuva. Sempre que isso acontecia, ele ficava acordado até de madrugada, escondido, para ver da janela o estranho que sempre aparecia para pegar o fumo.
Parecia ser um senhor muito baixo, quase da sua altura, usava um chapéu de abas largas e roupas humildes, sempre trazendo um cachimbo longo do qual saia uma fumaça que tomava tons de roxo ao luar.
Por causa da lua cheia o terraço ficava bem claro e meu avô podia jurar que o velho misterioso tinha pelos, pelo menos sua barba era tão grande que lhe caia sobre o peito, fora o dorso das mãos e dos pés peludos.
Ele contava que, após o velho pegar o fumo, dava uma longa baforada no cachimbo e gritava: Boa Sorte!
Gritar era forma de dizer, na verdade ele gritava sem gritar, e o timbre de sua voz, meu avô contava que nunca tinha ouvido nada parecido. Dizia que a única vez que questionou seu pai sobre o motivo que o fazia deixar o fumo, este simplesmente se resumiu a dizer que era por causa da boa sorte.
Era a época em que as simpatias do interior funcionavam. Ele contava que podíamos passar nossas doenças para alguns animais, que foi assim que sua avó tinha se curado da tuberculose, em uma noite de mormaço em agosto com a lua minguante. Seu pai tinha pescado um peixe e o soltara no rio logo após ela escarrar em sua boca.
Era tudo verdade, dizia ele. Algumas das árvores confirmavam, outras desconfiavam.
Ainda passo pelo meu antigo bairro de casas quase centenárias, hoje sendo engolida pelos prédios cada vez mais altos. Vejo meu pinheiro se erguer por detrás do muro amarelo, muitos metros acima do cume da casa.
Pergunto-me se era verdade o que meu pai contava, ou se fora mera coincidência. A verdade é que não teria coragem de perguntar isso diretamente ao pinheiro.
Parado, lhe dou um adeus silencioso e logo estou dobrando a esquina.