sábado, fevereiro 23, 2013

Havia uma velha mulher que morava em um sapato (conto folclórico inglês)




Havia uma velha mulher que morava num sapato,

Ela tinha tantos filhos que não sabia o que fazer!

Então, deu-lhes um pouco de caldo sem nenhum pão,

E chicoteou a todos profundamente e enviou-os para a cama!

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There was an old woman who lived in a shoe,
She had so many children she didn’t know what to do!
So she gave them some broth without any bread,
And she whipped them all soundly and sent them to bed!

Referência


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Edipiana nº1







Mamãe,
Eu ontem passei mal
E me lembrei de você
 

Mamãe,
Eu me lembrei de você
E gritei: Mamãe!
 

E depois o silêncio e a calma
Tomaram minha cara
E eu me vi no espelho, mamãe


Ô mãe, meu cabelo avoou
Meu pensamento mudou
Minhas marcas digitais
Sei lá, sei lá, mãe


Não se avexe em perguntar
Se eu gosto de você
Mando um beijo pra você,
Mamãe

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Alceu Valença

sábado, fevereiro 02, 2013

Mar




Sentado na beira da praia de Boa Viagem, conversando sobre o mar. Era assim que ele estava da última vez que conversou com o amigo castor.
Um caju caído entre as areias de um dia de semana, sem movimento, em um dos jardins de Boa Viagem. Era o que recordava.
Abrira um guarda-chuva pra se proteger do sol e olhava, por detrás dos óculos escuros, as ondas intermitentes a se arrastarem sobre a areia molhada.
A conversa, longe, sobre música e o mar. Marinheiros de primeira viagem. O mar a dar suas idas e vindas.
O caju com saudades do ar, de estar suspenso em seu cacho.
O castor a querer descer de batisfera os abismos do mar.
O tempo a passar naquela conversa.
Por fim se despediram.
Nem mar, nem ar. Cada um foi pra sua casa.



domingo, janeiro 27, 2013

A canção das dez



É domingo. A canção das dez chega pela varanda do pequeno apartamento.
Folheio as páginas do livro enquanto o sol entra gradualmente pela sala, esquentando o que restou da noite sem chuva.
Escuto a canção das dez, que esquenta tanto quanto o sol. Não sei cantar, assovio.
Recosto no sofá, já sem ler. Fecho os olhos e sinto o calor do sol que ilumina a sala como um holofote que surge por detrás das grades da varada.
A canção das dez entra pelo apartamento, preenchendo cada quarto, entrando pelas frestas das portas, pela cozinha com seus pratos do jantar de ontem sobre a pia, esquentando o que sobrou do café na chaleira sobre o fogão.
Penso em viajar. Penso no mar.
Estou confortável comigo mesmo, olhando o mundo inteiro da varanda, respirando a canção das dez.
Ela se vai de fininho, sem se perceber.
Volto a ler
e penso em escrever.

quarta-feira, janeiro 02, 2013

Dias de Janeiro


Chove, o tempo corre.
Corro contra o tempo.
Corro contra o que me é natural.
Dias de janeiro, calor demais.
Piso no acelerador.
Piso na lama da cidade.
Abro a janela do carro, deixo os pingos de chuva baterem em meu rosto.
Piso no acelerador , corro contra o tempo.
Eu e o pequeno fantasma no banco do carona.


terça-feira, novembro 13, 2012

Gatos no quintal



Arquivo pessoal


Ela era uma gata velha. Preta com peito branco. Tinha o mérito de ser sobrevivente numa cidade cheia de carros, diversas ninhadas paridas e deixadas à própria sorte como ela mesma já fora um dia. 

Contava com a experiência de um animal que já se encontrava em sua quinta vida, não seria mais tão descuidada ou confiante como fora nas duas primeiras.

A conheci em um abril de chuva. Tinha ares de uma felina de grande porte, rainha da cidade de concreto. Acampara uma temporada em meu quintal, período no qual travamos um relacionamento minimamente amistoso.  Eu era para ela um filhote de homem curioso e fácil de lidar (fato do qual soube tirar todo o proveito para sua sobrevivência naquela época).

Dizia-me que não acreditava em Deuses, e achava estranho que alguns animais (como eu) só tivessem apenas uma única oportunidade de viver aqui. Desdenhava dos outros gatos antes de sumir em alguma sombra. Ela disse que só em sua terceira vida aprendeu a usar as passagens que davam em lugares distantes, porém eram difíceis de serem encontradas.  Eu tinha sorte de ter uma delas na sombra da árvore do quintal.

Ela nunca falava das suas duas primeiras vidas, só com certo sarcasmo e humor das demais. Acho que ela gostava de mim, às vezes dizia que eu bem que poderia ter sido um bom filhote, mas que ela não tinha a mínima vocação para ser mãe. 

Conversávamos horas às vezes. Eu sentado, de galochas, à soleira da porta enquanto ela se acomodava ao lado da árvore, protegida da chuva com suas orelhas rasgadas a me fitar. Quando adoeci ela veio todos os dias à janela do meu quarto, mas não dizia mais nada.

No trigésimo quarto dia de sua estada no meu quintal eu soube que ela iria embora. Na verdade já sentia isso a um bom tempo, talvez ela estivesse sem jeito para dizer, mas não era isso. Ela simplesmente disse que estava de partida. Nem olhou pra trás enquanto caminhava para a sombra que a árvore fazia às três horas da tarde e que apontava sempre para o leste. 

Nem me atrevi a perguntar se a veria de novo, nem pude correr até ela por causa da chuva. Só pedira, antes de entrar nas sombras, que não arrancasse a árvore.
Sumiu então. Nunca mais a vi. 

Nos anos que seguiram até mudar de lá, tive diversos visitantes em busca daquela mesma árvore em meu quintal. Alguns amistosos, outros intratáveis. 

Um dos últimos que encontrei era bastante comunicativo, jovem ainda em sua segunda vida. Dissera-me que os gatos e alguns outros animais e seres podiam atravessas certos lugares que serviam de portais para eles. Os melhores eram os das casas velhas, mas geralmente eram usados por espíritos e outras criaturas pouco amigáveis. Disse que eu tinha sorte de ter um bem no meu quintal, e era uma pena que eu não pudesse usá-lo. 

Antes de ir, perguntei por uma gata preta, surrada. Disse que era uma pessoa querida pra mim. Ele, muito prestativo, disse que a vira uma única vez de relance, enquanto conversava com outro gato. 

Disse-me que era uma bela senhora, porém meio estranha. Jurava que havia escutado ela dizer ao outro gato que havia encontrado um de seus primeiros filhotes, que havia perdido muitas vidas atrás. Um filhote-menino.

domingo, julho 08, 2012

O Enforcado e o Cupido



Texto: Luis Magalhães
Ilustração: Tempestade 

Encontrava-se o enforcado mal, enlouquecera - dizia a si mesmo, mas nunca fora ele possuidor de cabeça ao menos em posição normal. Naquele dia como a maioria dos outros, os deuses não tinham muito tempo a perder, preferiam se ocupar de suas próprias vaidades. Sentado com sua harpa em uma nuvem qualquer, o Cupido conseguiu sentir os lamurios silenciosos do enforcado em seu sofrimento, e decidiu que podia dar uma descida. E por que não consolar esse de mundo virado para o ar?

O enforcado vislumbrava o nada, seu olhar perdido indicava que alí já não mais existia uma alma inteira, era um resto, um fragmento de esperança duramente machucado.

-Olá! O que te rouba o sorriso pelo dia, que te apaga o brilho dos seus olhos, e te afasta de todo o mundo? Pareces tão mal, disse o Cupido desfocado, entendendo que ali não era o seu lugar.

-Oi. Oh Cupido, se outrora eu me encontrava na eminência do apertar da corda, hoje já me voga no falso desejo que ela contorça a vida e leve minha dor, antes
sentir a corda a me ameaçar, do que o infortúnio que me fizeste sentir.

-Ô, é de amor que sofres?

Surge nos olhos do enforcado um brilhar fraco como do fim de uma vela que nos seus últimos segundos ilumina todo um quarto. Com voz firme e compenetrado, ele responde: - Sofro da perda, da falta, da fome, da companhia, da voz, do sorriso, do cheiro, do sabor, de sonhar, do ter que, do não ter que, do esperar, de não esperar, de saber, e do não querer. Sofro pela entrega.
  
-Oh enforcado, amar é sofrer, se não te entregas, não podes amar. E se sabes que não sabes amar deverias tirar o verde, antes que ele cresça em espinhos. Raros são os rios que já nascem fortes, eles se transformam pelas águas que recebem. Não procures tirar a fumaça do fogo enquanto a madeira ainda estala. Apegues-te à eterna esperança que, mais cedo ou mais tarde, tudo dê certo, que depois da tempestade vem a calmaria.

- Não sou o louco para blasfemar acusando-te de não conhecedor do amor, amigo Cupido. Mas nenhuma coisa que queiramos que dure pode começar pensando quando vai quebrar. Não se pode separar o explendor das rosas azuis dos seus espinhos, os rios não precisam ser fortes para destruirem campos quando inudam, e muitos rios não diferentes de córregos formam grandes lagos belos e tranquilos. Não ousarei tocar no fogo neste momento que ele consome, o tempo é de esfriar, mas não procuro calmaria.  Tenho a certeza de que antes ter amado e sonhado com o possível sem fim, do que nunca ter vivido o que vivi. No fim, nenhum amor morre, só nos torna mais amados e a outra pessoa mais amada, transformamo-nos em pessoas melhores quando podemos dividir um pouco do que só existe em cada um de nós.

O Cupido encantado:
- Se quando saí de minha nuvem com coração apertado tinha escondido a minha dor de um trabalho mal feito, tu me ensinas que amar é muito mais do que ser amado, é um estado de ignorância de tudo o que não é. É o poder de renascer com a alegria de ter vivido e aprender que o mundo é provado como nossa alma pode provar. Da tua pureza, não posso e não vou-te acalmar o espirito, vou te dar apenas a certeza, que sempre hás de amar.

Luís Magalhães (24 de junho de 2012.) - Direitos reservados.
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Um texto que adorei ilustrar, do meu grande amigo Lulu!
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