sábado, junho 25, 2016
São duas da manhã. Escrevo.
Conto uma história perdida, um conto bem curto, porque não consigo concatenar mais do que dois ou três personagens.
Não escrevo tão bem quando estou tomando remédios. Me fogem as letras da história que tento escrever.
Pequenos fragmentos aleatórios que junto, tentando dar coesão à algo que não fora planejado. Paro e respiro, volto a história. Besteira, apago ela por completo da tela do computador.
Eu não sei escrever, essa é a verdade. Pego emprestado entonações dos outros, minha escrita não tem sotaque, é de lugar nenhum, como eu.
Abito o momento em que abito, não tenho fé em nada, além do amor que sinto por ela. Acendo um cigarro, tomo remédios pra dor, escuto
Portishead, sinto a chuva que apaga as fogueiras das ruas.
Olho o mundo do alto dos meus quase dois metros, não tenho respostas para as perguntas, porque não tenho perguntas. Sinto a chuva. Apago o cigarro e torço para os remédios fazerem efeito.
Esqueço do conto, não tenho ânimo para escrever outra coisa.
Volto pra cama, sei que ela vai embora daqui a poucas horas.
Abraço-a perdendo-me no cheiro de seus cabelos, noite a dentro,
adentro.
terça-feira, março 29, 2016
Fantasmas
Havia
fantasmas nas minhas casas. Em quase todas que morei.
Quando
estava só, os via por vezes à noite. Tinha uma mulher no meu antigo
apartamento, ela morava no quarto de visitas. Vivia passando da sala
para o quarto de visitas, mas nunca me falou uma palavra.
Mais
de uma vez cheguei a me perguntar se eu não era o fantasma afinal.
Quem sabe?
Tenho
lembranças pelas paredes de casa, caminho pelos quartos vazios.
Livros
e fotos, é o que você encontraria aqui.
Além
de um gigante a vagar por entre vultos durante a noite.
segunda-feira, janeiro 11, 2016
Space Oddity (goodbye)
Ground control to Major Tom
Ground control to Major Tom
Take your protein pills and put your helmet on
Ground control to Major Tom
(10, 9, 8, 7)
Commencing countdown, engines on
(6, 5, 4, 3)
Check ignition, and may God's love be with you
(2, 1, lift off)
This is ground control to Major Tom
You've really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now it's time to leave the capsule if you dare
This is Major Tom to ground control
I'm stepping through the door
And I'm floating in the most peculiar way
And the stars look very different today
For here am I sitting in a tin can
Far above the world
Planet Earth is blue, and there's nothing I can do
Though I'm past 100,000 miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows
Ground control to Major Tom
Your circuit's dead, there's something wrong
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you hear me Major Tom?
Can you...
Here am I floating round my tin can
Far above the moon
Planet Earth is blue, and there's nothing I can do....
"E o que se pode fazer com essa babaquice no mundo? O David Bowie morreu"
sábado, julho 11, 2015
Chuva
Chove. Estou feliz, porque gosto da chuva.
Porque sei que você também gosta da chuva.
Porque gosto de você.
Sinto frio no Nordeste glacial, meus óculos embaçam
na chuva.
Ligo pra você, falo do frio, da chuva, da saudade.
Ando pela cidade, passo por lugares que me lembram
você.
Sento e escrevo, tomo meu café doce.
Minha vida gira por entre aulas, atendimentos, contas
e livros.
Caminho só pelo apartamento frio, olho os pedaços do
que não sou eu pela casa.
Reflito, respiro o ar.
Sou todo chuva, líquido, fossa abissal de um mar, lá
onde os escafandristas ão de encontrar vestígios de lembranças de nós dois.
terça-feira, junho 23, 2015
Saudade
Porque bebo o café forte, na varanda olhando a chuva, é em você que penso. Como se cada gole no café quente e doce fosse uma lembrança de cada beijo, já dado e ainda por vir.
Porque é a saudade que presentifica sua falta.
Leio trechos do livro do Henry Miller, pensando em nós, no encontro dos lábios e dos desejos mais sinceros de nossos corpos.
Olho a chuva por entre a fumaça da caneca fumegante. Amo a chuva porque sei que você ama a chuva. Amo você, porque sei que amo você, porque não há motivos que justifiquem o que eu sinto.
Toca uma velha e linda canção dos Smiths que você odeia, ah meu amor mas como me faz querer estar com você.
Lhe conto meus sonhos pelo telefone, falamos dos nossos cotidianos. Trocamos confidências, segredos que não ousaríamos dizer a mais ninguém.
Cuido daquilo que, em você, me faz te amar em silêncio, sem cobranças. Cuido porque o que me era corpo já não me pertence, é seu, para fazeres o que quiser.
Penso em palavras que pudesse dizer sobre cafés, chuvas e saudades sem parecer piegas, mas não consigo por causa do frio. Estou só a olhar a chuva no escuro. Penso em textos, em frases soltas.
E a única palavra que me vem à mente é saudade.
terça-feira, maio 26, 2015
A velha dos cachorros - do arco "Personagens efêmeros do Recife Antigo"
Costurava suas próprias feridas. Aprendera com a mãe, que exercia o mais próximo que se podia chegar de um saber sobre a medicina do corpo. Dasdores, que fora sinhazinha, antes dele ter nascido para aprender a coser suas cicatrizes.
Sua mãe, dominava os saberes esquecidos dos males da alma, "corpo é só casca, pano de costura"- dizia rindo, unindo ponto-a-ponto os retalhos do corpo.
Peregrinava com o garoto, errante, em troca de comidas, peças velhas de roupa e algumas moedas, em troca dos segredos que aprendera de sua avó.
Lhe fora dado o direito só de se remendar. Os segredos do coração pertenciam às mulheres da família. À elas era contado sobre o sangue, as dores e os mistérios de criar vida do nada.
Aos homens era contada uma história diferente, os mais velhos clamavam uma herança de uma época que tinham seus próprios segredos, que foram perdidos.
Em trapos seguia a velha pelas estradas de terra, seca, árida. Seu corpo, colcha de retalhos. Dele saiam os pedaços que ela usava para prever os infortúnios. Mãos hábeis em tirar-lhe a carne, não sentia mais dor. Sentia uma fome ávida, mas não comiam, nenhum dos dois. Por décadas. Também não faziam uso das moedas que, com o passar dos anos, perdiam o valor é eram esquecidas ao longo da estrada.
Andavam as mesmas estradas perdidas, anos a fio, portadores da fome. Tornando-se efêmeros como os próprios relatos de suas aparições.
Castigavam a surdez alheia, fazendo a fome gritar mundo afora, sem fastio, com fome de tudo.
Chegara ao cais da cidade, muitos e muitos anos atrás. Entrava e saía do bairro velho, em suas peregrinações. Guardava os trapos remendados do que fora seu filho, sua fome, em uma velha valise, que no decorrer dos anos mudava de forma.
Era seguida pelos cães abandonados, guiados pela voz sussurrante de suas falas desconexas.
Nas noites em que fazia frio no bairro velho, vestia a colcha de retalhos que fora seu rebento e dormia, a sonhar com as eras passadas, vigiada pelos cães, em matilha deitado ao seu redor.
Foi testemunha da chegada das mais diversas criaturas que se espalharam pela cidade, vindas do porto.
Ainda haveria de testemunhar as novas criaturas nascidas na aurora da ciência, que convergem para o velho bairro, ávidos por derrubar e destruir os deuses velhos que moram nos escombros dos sobrados, para erguer suas torres em homenagem a si próprios.
quarta-feira, maio 20, 2015
Ítaca

Volto, depois de anos. Ulisses às avessas.
Volto a partir, depois de anos.
Ao mar jogo os despojos de conquistas distantes. Só me sobra o corpo, que jogo junto às peças de metal frio sem valor para aqueles que não os tem por serventia.
Homem ao mar. Casca de semente que já se tornou árvore, que já servira de casa para aves, roedores, lagartos e outras plantas.
Hoje, casa de cupins, de famílias e famílias de castas diferentes a se erguerem da queda do tronco.
Volto, depois de anos.
Para a terra, de onde voltarei a partir.
Para uma Ítaca que nunca existiu.
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