segunda-feira, abril 12, 2010
Clarisse
Sua mente estava vazia, como um saco vazio cheio de ar esticando-o, seu corpo pesava naquela cama de lençóis baratos, cujo colchão afundava em seu meio. Havia acordado a mais de uma hora, o ardor em seus braços, que antes a mantinha desperta, agora nada mais era do que uma pequena lembrança de noites primevas. De vez em quando podia acreditar escutar uma versão do rádio de Mother Goose, do Tull.
Clarisse não iria levantar, mesmo ao ouvir o barulho de Cecília ao expurgar o resto de toda a noite passada no vaso sanitário do banheiro branco. Cecília havia sido honesta com ela, nunca lhe prometera nada e sempre havia deixado claro que redenção era algo que não encontraria com ela. Clarisse a olhava vir, nua, com os braços brancos, tão cheios de marcas, mas continuava linda ao descerem as gotas de suor sobre se corpo, que caminhava vacilante em direção à cama.
Colado à janela uma velha capa de Ziggy Stardust, a pequena tv ao lado da radiola, seus pôsteres, seus livros, seus cansaços se espalhavam pelo resto do ambiente. Ouvia Cecília chorar baixo contra o travesseiro enquanto olhava a hélice do ventilador girar cada vez mais lenta. O cheiro dela era uma mistura de suor e canela, seria bem mais doce, não fosse o cheiro que a lembrava do gosto metálico de sangue de seus pequenos furos em seu corpo. Seu choramingar ao travesseiro era doce, uma música distante que ecoava dentro da cabeça de Clarisse.
Não iria dizer nada para Cecília, o silêncio sempre fora suas conversas mais íntimas. Não iria humilhá-la dizendo algo. O olhar ainda para o teto, parado no tempo, regente das lágrimas que também eram suas. Cecília cheirava a canela, estava cansada, mal conseguia manter os olhos abertos. Seu toque era suave. Cecília abraçava-a levemente fazendo com que suas pernas pesassem sobre as de Clarisse, enquanto sua cabeça se acomodava próxima ao seu rosto, sentindo o cheiro de seus cabelos. Quase apagando.
- Humm.. você está tão fria Clarisse.
segunda-feira, março 29, 2010
Espelhos e Cafés
Os cafés, para mim, sempre foram as ante-salas, as salas de espera para os encontros comigo mesmo.
O outro do espelho escreve pequenas anotações no guardanapo de papel. Penso que ele deva estar a escrever algo mais interessante. Ele realmente precisa cortar aqueles cabelos e fazer a barba.
Tento ler minha sorte na xícara vazia de café, nada que vá além das contas para pagar e das pequenas grandes descobertas que desnudam a realidade da qual não me apercebo.
Ele escreve sem parar, quase que em transe, quase que rasgando os guardanapos, de tão rápido que escreve.
Olho para o espelho e o vejo concentrado, escrevendo como se não precisa-se parar para pensar no que escreve, juntando palavras, pontuações, vírgulas e mais vírgulas, sem precisar fazer sentido, como se o próprio ato de escrever fosse substituto para o curso do seu pensamento agora vazio.
Já eu, em minha observação, me prendia entre o cheiro dos croissants e dos cafés, e as pessoas que transitavam entre as pequenas mesas de duas cadeiras que enchiam o pequeno espaço.
Cheiro de azeite. Eu quase me perco o sentir o gosto trazido pelo cheiro. Me perco olhando o vazio, imaginando cidades de azeite, com árvores-oliveiras, rios oleosos, entre o verde-oliva, e o cheiro.
E de repente estou novamente no café, escrevendo a terceira folha de guardanapo. Olho para o espelho e vejo-me a me olhar escrevendo sem parar, como se houvesse um delay tão enorme na reflexão da luz do espelho, que o fizesse um anteparo entre presente e passado. E já não sei se sou o presente, a recomeçar o escrever de onde parei no espelho, ou o ato atrasado da imagem refletida anteriormente na superfície polida ao meu lado.
Junto as folhas espalhadas pela mesa e as guardo numeradas dentro de um livro da Anne Rice, que uso como suporte para escrever, na esperança de que fiquem esticadas e não rasguem.
Tiro umas moedas do bolso e pago meu café. Olho a pequena mesa ao sair, ao lado do espelho que corta uma ponta a outra da parede que é uma mistura de tons de creme, e o vejo sentado a me encarar. Barba por fazer, cabelos rebeldes.
Em sua mesa, muito mais papéis espalhados dos que levo numerados em meu livro. Em seu olhar nenhum sinal de que vá embora tão cedo.
sexta-feira, março 12, 2010
O Brasil fica órfão de um de seus gênios do Cartum.

Glauco foi um dos melhores cartunistas do país, pai de personagens como Geraldão, Casal Neuras, Zé do Apocalipse, Doy Jorge e a Dona Marta.




.Não só seus personagens ficaram órfãos, mas todos nós que acompanhamos e fomos cativados por seus personagens mais reais do que excêntricos. Junto com Angeli e Laerte (amigos e também gênios o Cartum nacional), criou Los Três Amigos
, cujas aventuras de Laertón, Glauquito e Angel Villa nada mais eram do que os escracho acumulados dos próprios autores (com o passar dos anos o personagem Adón, homenagem ao amigo cartunistas Adão Iturrusgarai, foi adicionado ao trio, mantendo-se o nome da tira).Para quem pegou o fim dos anos oitenta e início dos noventa e teve a oportunidade de ler revistas como Chiclete com Banana, Piratas do Tietê e Geraldão, com certeza sabe que o assassinato de Glauco foi mais do que a morte de mais um, um número entre milhares de números nas estatísticas, e com certeza mereceria mais do que uma nota no final de um telejornal matinal.
Glauco foi vítima de um assalto em sua casa, ele descansava com a mulher (Beatriz Galvão) e os filhos em casa, quando foi invadida por dois homens armados. Ele conseguiu negociar a saída junto com os assaltantes, deixando mulher e filhos em casa. Quando saia, seu filho Raoni (25 anos) chegou, houve discussão e pai e filho foram assassinados. Glauco foi alvejado por quatro tiros à queima roupa, ambos morreram a caminho do hospital.
Ninguém foi preso até o momento.
Fonte: Folha Online e uol notícias
Galeria de fotos

quarta-feira, março 10, 2010
Cotiadiano ou Desacertos
E é assim que sempre continuam os dias. As férias finalmente acabam e as coisas começam a voltar ao seu ritmo, ou seja, começam a dar errado.
Máquina de lavar pifada, descarga da suíte com defeito, computador formatado e raridades perdidas. E tudo só na primeira semana de trabalho... Nada como volta à velha rotina.
Em breve será mais um ano de Tardes Quentes de Outono, e eu ainda não me encontro no meu modo de escrever. De diário virtual dos meus 18 anos, desabafos virtuais, blog de pequenas crônicas, à, com o fim do weblogger, um blog, algo disforme e sem rumo dos dias de hoje.
Do calouro da faculdade; das idas à cidade velha, das bebidas do bar do fogão; das viradas de noites com os amigos na velha boate undergroud que funcionava numa panquequeria num dos velhos casarões do bairro histórico; das madrugadas a filosofar com vinhos e salgadinhos na varanda de frente pro mar; dos infartos, comas, cânceres e mortes; do início da vida adulta; da tomada da vida profissional; do casamento e das novas descobertas como homem, marido, companheiro; de todo um percurso intermitente, pelo qual percorro me dando conta as vezes, as palavras sobram e sobrevoam tudo.
Tudo porque olho demais para trás. Quero voltar a escrever crônicas. Quero me animar a escrever mais.
Então sento na frente do computador, enquanto ponho The Smiths pra tocar. Penso em contar alguma história alheia...
“...Como a duas décadas atrás ele vinha ao mesmo parque, não sabia ao certo o porque, mas como se as folhas do outono caídas sobre a pequena estrada de seixos lhe fossem um emplastro para alguma dor crônica, tomava sua caminhada em doses homeopáticas. Foi ai que aconteceu.
Sem avisar, vinha uma lufada de vento que trazia mais do que as folhas amarelas e secas, mas as novas de uma história que se perdera à muito e que pela qual ele não cuidara de se resguardar, talvez por imprudência (quem sabe?), mas a qual nem horas e mais horas de seu emplastro poderia sanar...”
domingo, fevereiro 07, 2010
Diários de São Paulo
Olho pela janela do hotel e vejo as luzes da cidade que nunca dorme, o quarto escuro e somente a luz do computador a iluminar a pequena mesa, que sustenta minhas palavras e a pequena xícara vazia de café expresso.
Antes de dormir ela pede para que não passe a madrugada inteira no computador, então logo em seguida pega no sono, como uma criança, a esquentar nossos lençóis. Recapitulo cada passo do dia, desde a chegada de uma viagem cheia de turbulência e raios às poucas horas dormidas e o caminhar pela cidade.
Dos muitos bairros, que me lembravam Porto Alegre, via a colcha de retalhos que lembrava a capa do livro de Mário de Andrade, disforme de timbres, cores, tamanhos, dos metrôs lotados, de cada peça de uma falange que me escapa o significado. Lá estava o meu eu, lírico e satírico, que caminhava por entre os transeuntes da estação da luz, do museu da língua portuguesa e se encontrava comigo em meio à exposição dedicada a Cora Coralina.
Recordava das histórias de minha mãe jovem que viajava pelo país inteiro e suas divisas, como se para mim, menino, fosse ela um Odisseu. Recordava toda uma história mítica de mim, como se as lembranças dos lugares que nunca fui se misturassem as minhas próprias lembranças pré-históricas de poucos anos, como passar pelo MASP, ver esculturas de Abelardo da Hora e não lembrar de meu pai e seus seminários caseiros sobre a importância da cultura ou ao comer numa cantina no Bexiga ou qualquer outro local boêmio com histórias antigas.
Às vezes consigo viajar para mais longe do que meu corpo pode acompanhar. A avenida paulista hoje me parece interminável, mas já não caminho sozinho a um bom tempo, e já não me importo de tê-lo de percorrer. De mãos dadas o caminho sempre acaba sendo mais curto.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Caminhada
Vídeo: Arquivo Pessoal
Volto correndo da chuva. O allstar vermelho já enrustido por causa da lama tem muita história pra contar, não tenho mais idade pra usar allstar, não tenho mais a idade que sinto ter.
Corro mais rápido, logo estarei mais molhado pelo suor do que pela chuva quando parar em um lugar seco, a meia encharcada, o pé enrugado.
A chuva cai no asfalto quente e deixa a rua abafada, não sei o que é pior, a chuva grossa na minha cabeça ou o abafado que vem do asfalto que teima em não resfriar.
A barra da calça já era, a umidade só não chega aos joelhos porque tenho as pernas longas, enormes, sou um gigante dando passos de um metro correndo da chuva.
A gola do casaco verde musgo levantada, os cabelos molhados caídos na testa e um delta no início da testa de onde parte as linhas d’água que escorrem pelo rosto, sinto o gosto da água da chuva.
Tenho vontade cantar como Gene Kelly, mas mal consigo respirar, o ritmo já não é mais o mesmo, estou tão atrasado como o coelho de Alice. Sinfonias de carros na rua e da minha cabeça não saem viagens de avião, congressos, amigos e a coleção de Proust que ganhei de minha sogra.
Não importa mais não vou chegar na hora. Volto caminhando alguns metros até o café pelo qual passei, espero que me deixem entrar assim. Quase bato a cabeça no sino que fica preso à porta.
- Um expresso grande, por favor, ah e o jornal de hoje, obrigado. Fujo do ar-condicionado e sento-me à janela do café. Lá está o mundo em movimento, nem presto atenção mais ao jornal.
Tomo um gole do café forte e deixo a fumaça que sai dele levar as angústias do coração.





