sexta-feira, agosto 02, 2013

Haiti





Passeio pelas ruas do Leblon e olho de longe a movimentação e o barulho de carne gritando dos dois lados, entre bombas dos dois lados, me afastando quando o cheiro do gás começa a chegar. Então começo a lembrar.

Eu cai e estendi os braços, aos quais foram retribuídos por outros braços em um abraço, e fechei os olhos sentindo o cheiro de lavanda e de mãe. E dormi como quem dorme cansado em braços quentes depois de se machucar. Chove e fumo o último cigarro da carteira, olhando a fumaça assumindo diversas formas levadas pelo vento lateral e húmido. 

Quando garoto, sonhei com aquela menina da 5ª série, que estava de vestido branco e abria a porta do armário da sala de sua casa e me chamava para entrar junto com ela. Mas ela estava morta, eu mesmo tinha ido ao velório na sua casa e vi os chumaços de algodão em seu nariz e, de repente, me peguei pensado como devia ser difícil respirar com eles. 

Ouço um barulho mais perto de bombas e gritos. Então eu penso no Haiti, rezo pelo Haiti. No chão um panfleto xerocado com a foto de um homem negro, mulato, me olhando fixamente. Uma frase perguntando onde ele estava. Tento olhar a cor da minha pele na pouca iluminação. 

Eu não sei onde estou agora. Estou andando por ruas de paralelepípedos molhados com rastros de bondes, passando pelos sobrados abandonados de Pernambuco. Está chovendo, mas eu não estou com frio. Chove e eu estou suando. Estou com sede.

Ando com sede, olhando as cores do caminito, sem dar muita atenção, na verdade, pra quem quer que esteja nas casas e lojas. Me fodendo pra quantos pesos trocados eu ainda tenho nos bolsos. Sinto-me um Caim de Saramago, andando com um pedaço de papel entre os dedos pensando no Haiti, rezando pelo Haiti.

Olho ao redor e as pessoas têm os olhos do Amarildo, todas elas. Até quando fecho os meus próprios. Olho a cor da minha pele em tons de preto e branco xerocado e sujo. Eu ainda não sei onde estou. Não moro em meu próprio corpo. Não nos sobra muito mais que nada no final.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Ao sol







Perdi minha mão.
Do toco aberto nasceram flores.
Finquei meus pés no chão.
E cresci em direção ao sol

segunda-feira, julho 29, 2013

À guisa de uma faxina de inverno






“- Acordo de um sonho louco, no qual eu administrava uma franquia de comida tailandesa, às 4 da manhã. Não se dá para ter sonhos tranquilos quando a vida está um caos” – dizia pra si mesmo no escuro, como a um terceiro, tentando olhar as horas no relógio do quarto.

- Ah, meu Deus! Dai-me paciência. Outro dia que vou passar com medo do mundo acabar e desmoronar sobre minha cabeça.

Ele tomava banho e ruminava a mesma velha história, da importância do seu “trabalho”. Tinha que limpar e arrumar as coisas erradas do universo, tal qual uma limpeza de fim de inverno em uma casa grande. Só descansava aos fins-de-semana, e às vezes nem isso.

Quando jovem, fizera um pacto com uma criatura que já era velha quando a lua nasceu e que lhe prometeu algo tão efêmero, porém  magnífico e impossível aos olhos do jovem.

“[...] - Pronto pra assinar? Aqui e aqui – sorria.”

“- Sim, mas que tipo de trabalho eu vou ter que fazer mesmo pra pagar?”

“- Você conhece o mito de Sísifo? Não? Bem, será bem menos vertical do que o daquele garoto bobo. Ah, e assine aqui também. [...]”

Dito isto, passado o pequeno momento de apogeu de seu desejo, assumira a labuta de evitar o caos, ordenando e trocando os objetos das prateleiras de um universo inteiro, a guisa de uma faxina de inverno.

Então ligava o rádio e, para começar, pegava a vassoura, tirando os entulhos debaixo do tapete pensando que, pelo menos, não estava na administração de um restaurante.

terça-feira, julho 16, 2013

A casa de bonecas






Sonho:
Desejo, se você não fosse da família...

Desejo:
Mas eu sou.

Sonho:
Sim. Você é.
Desejo, escute com atenção. Lembre-se disso.
Nós, os perpétuos somos servos dos vivos, não seus mestres. Nós existimos porque eles sabem, no fundo de seus corações, que existimos.
Quando o último ser vivo deixar esse universo, nossa tarefa estará concluída.
E nós não os manipulamos. É mais correto dizer que eles nos manipulam. Somos seus brinquedos. Suas bonecas, se preferir.
E você... Desespero e até a pobre Delírio deveriam se lembrar disso.

Desejo:
Eu... Eu não entendo.

Sonho:
Eu temia que não compreendesse. Muito bem.
Eu lhe direi algo que ENTENDERÁ, irmã-irmão. Mexa comigo ou com os meus novamente, e ESQUECEREI que você é da família Desejo.
Você se julga forte o suficiente para ficar contra MIM? Contra MORTE? Contra DESTINO?

Desejo:
Não.

Sonho:
Lembre-se disso da próxima vez que se sentir inspirada a interferir nos meus assuntos.
Lembre-se bem.

“E Desejo caminha pelas câmaras de seu coração. Ela caminha pelo Limiar, sua cidadela e sua proteção. E se pergunta:”

Desejo:
O que ele quis dizer? Que nós somos brinquedos deles?
Os seres humanos são criaturas de Desejo. Eles se contorcem e se dobram conforme minhas exigências. Se eu pensasse de outra forma, teria enlouquecido, como Delírio. Ou abandonaria meu reino como nosso irmão perdido.
Pobre Sonho...
Eu realmente o incomodei dessa vez.








(Gaiman, Neil.  in: Sandman: A casa de bonecas. Ed. CONRAD - VERTIGO, p. 226-227)


sexta-feira, junho 14, 2013

O Click










- Pronto, lá vai!
- Você sabe que não gosto de tirar fotografias.
- Ah! O que tem guardar uma lembrança?
-Temos muitas outras lembranças que podemos guardar.
- Temos sim, e essa é uma delas.
CLICK
- Ei eu não estava esperando!
- Essas são as melhores fotos, inesperadas, rs.
- Assim como os melhores beijos!
SMACK!


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