terça-feira, abril 01, 2014

Sobre convites e agradecimentos




Porque tudo muda mesmo.
Nomes, layouts, nossas faces e cores.
Mas nem toda mudança precisa ser dolorosa.
Eu estou feliz e, dessa vez, vou poder contar com a participação dos amigos para marcar bem este abril específico na memória.
O aniversário é só no dia 21, mas a comemoração vai ser durante todo o mês.

Sejam bem vindos.

domingo, março 30, 2014

Sobre as mudanças e o ano que agora começa agora no blog



É quase abril e estamos no outono.
As tardes quentes farão 10 anos. E para comemorar esse mês, esses anos que acreditei que não durariam tanto, convidei algumas amigas e amigos que participaram desse lugar sem corporeidade, mas com muito afeto, para ceder algumas linhas de seus textos para que eu publicasse aqui no blog.
Nesse mês de aniversário, outras serão as vozes e textos, que adorei ilustrar especialmente para esta comemoração.
Também, como quando algo que muda tende a impelir a sua própria transformação, haverá as velhas mudanças na estrutura do blog, assim como a criação de uma nova categoria de resenhas literárias. Porque se não dá pra escrever de forma regular coisas que tenham um mínimo de importância ou sensibilidade, com certeza dá pra escrever sobre livros que me foram importantes.
Enfim o ano novo começa agora, com amigos, afetos, e a sensação de que o tempo continua a caminhar nos pormenores do que ignoramos.
Então que possamos comemorar enquanto ainda é tempo.

domingo, março 09, 2014

Loki



           

             Então eu sento no sofá, olhando os livros na estante. O sol das 15 horas a entrar pela varanda, causticando o ambiente.
            Tomo um gole gelado e doce da cerveja escura que comprei na padaria. A garrafa tão suada quanto a minha testa.
            Fecho os olhos e me sinto na África de Mia Couto, sentindo o calor da tarde preguiçosa à tomar de conta do meu corpo, que tento, em vão, esfriar com a cerveja doce. Rogo aos deuses africanos para que eu vire algum animal de pelos grossos e patas fortes, enorme à se aquecer na relva da sala do meu apartamento, banhado pelo sol cor de ouro, que entra sem cerimônias e toma conta de tudo, e me toma como objeto tanto quanto aos móveis. E quando chegar, minha mulher, a querer saber se voltei da padaria, dar de frente com aquele animal enorme a expandir as costelas em uma respiração forte e ruidosa, fitando-a com olhos animalescos, perdido no tempo e no espaço à olhá-la com curiosidade.
            Como um Puck, a pregar peças, por ser resto desgarrado dos adoradores dos deuses primevos. Transformado em animal à fitar minha mulher. Mulata também negra como a noite, de pele branca que o sol castiga, convocando o sangue a lhe prestar reverência em suas faces. O animal e a mulher, fitando um ao outro eternamente na savana da sala de estar do apartamento ao sol do meio da tarde.
           
Abro os olhos e estou sozinho ao sol, homem, sem deuses, com uma garrafa vazia e o gosto doce nos lábios, como uma lembrança de um copo de cólera.
Escuto trompetes ao longe, e penso em praias brancas.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Horses in my Dream

 P.J. Harvey

Volto por aquela rua escura que vai dar em meu apartamento.
Estou sozinho e levo em uma sacola a comida japonesa que comprei pra jantar.  Está tão quente essa noite.
Caminho cansado, por estar preocupado, por um instante me dar conta que a fome assola bem perto, pelos assassinatos e pela maldade que ronda os entornos de todos os lugares, por saber do garoto que foi morto por gostar de outros garotos, pelos esquecidos dos discursos políticos.
E eu caminho só, me perguntando a diferença que eu poderia fazer, sem poder. Eu caminho em silencio e rezo, mesmo sem acreditar em Deus. Rezo porque tenho medo, de não me importar mais. Escuto Horses in my Dreams e continuo com medo.
Medo de tudo aquilo que mostra a vida de forma agressiva, como os cavalos de que tenho medo. Por si só, respirando, o coração batendo forte e os olhos negros, como que ferisse só por estar vivo.

“Horses in my dreams
Like waves, like the sea
They pull out of here
They pull, they are free”

Sinto o suor ensopando minha barba cheia, pesada, pela rua escura, carregando meu jantar em uma sacola. Como está quente!
Estou velho em com medo. De tudo que é importante e femero.
Porque a música acaba e meus pensamentos somem, junto comigo na escuridão da rua.

sábado, janeiro 11, 2014

A língua secreta dos pássaros



Corro da chuva, pisando nas poças que se formam na calçada. Estou voltando pra casa.
Escuto pássaros, nas árvores que margeiam a avenida de poucos prédios. Estou sozinho na rua.
O tênis molhado, a meia úmida e o coração apertado. Você deveria ficar comigo e aprender a língua secreta dos pássaros.
O dia ainda estava cinza na manhã de sábado e eu estava só, correndo da chuva, com os livros de Rousseau que você me emprestou.
Lembrei-me daquelas histórias que você me contava, sobre as lendas e assombrações do livro de Gilberto Freyre, e pude jurar que naquela casa abandonada no final da rua de terra havia algo que afastava os gatos e outros animais.
E quando parei embaixo da velha árvore pra me proteger da chuva já não tinha medo, porque eu era um menino de poucos medos. E pensava se você gostaria de ficar comigo e aprender a língua secreta dos pássaros.
Naquela época não havia tempo para trens, nem taxis. Nenhum era mais rápido do que os pés apressados do garoto que descia a rua com seus livros, a pisar nas poças da rua sem asfalto, guardando em silêncio a língua secreta dos pássaros.


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