terça-feira, junho 23, 2015

Saudade



Porque bebo o café forte, na varanda olhando a chuva, é em você que penso. Como se cada gole no café quente e doce fosse uma lembrança de cada beijo, já dado e ainda por vir.
Porque é a saudade que presentifica sua falta. 
Leio trechos do livro do Henry Miller, pensando em nós, no encontro dos lábios e dos desejos mais sinceros de nossos corpos.
Olho a chuva por entre a fumaça da caneca fumegante. Amo a chuva porque sei que você ama a chuva. Amo você, porque sei que amo você, porque não há motivos que justifiquem o que eu sinto.
Toca uma velha e linda canção dos Smiths que você odeia, ah meu amor mas como me faz querer estar com você. 
Lhe conto meus sonhos pelo telefone, falamos dos nossos cotidianos. Trocamos confidências, segredos que não ousaríamos dizer a mais ninguém. 
Cuido daquilo que, em você, me faz te amar em silêncio, sem cobranças. Cuido porque o que me era corpo já não me pertence, é seu, para fazeres o que quiser.
Penso em palavras que pudesse dizer sobre cafés, chuvas e saudades sem parecer piegas, mas não consigo por causa do frio. Estou só a olhar a chuva no escuro. Penso em textos, em frases soltas.
E a única palavra que me vem à mente é saudade.

terça-feira, maio 26, 2015

A velha dos cachorros - do arco "Personagens efêmeros do Recife Antigo"




Costurava suas próprias feridas. Aprendera com a mãe, que exercia o mais próximo que se podia chegar de um saber sobre a medicina do corpo. Dasdores, que fora sinhazinha, antes dele ter nascido para aprender a coser suas cicatrizes.
Sua mãe, dominava os saberes esquecidos dos males da alma, "corpo é só casca, pano de costura"- dizia rindo, unindo ponto-a-ponto os retalhos do corpo.
Peregrinava com o garoto, errante, em troca de comidas, peças velhas de roupa e algumas moedas, em troca dos segredos que aprendera de sua avó. 
Lhe fora dado o direito só de se remendar. Os segredos do coração pertenciam às mulheres da família. À elas era contado sobre o sangue, as dores e os mistérios de criar vida do nada. 
Aos homens era contada uma história diferente, os mais velhos clamavam uma herança de uma época que tinham seus próprios segredos, que foram perdidos.
Em trapos seguia a velha pelas estradas de terra, seca, árida. Seu corpo, colcha de retalhos. Dele saiam os pedaços que ela usava para prever os infortúnios. Mãos hábeis em tirar-lhe a carne, não sentia mais dor. Sentia uma fome ávida, mas não comiam, nenhum dos dois. Por décadas. Também não faziam uso das moedas que, com o passar dos anos, perdiam o valor é eram esquecidas ao longo da estrada.
Andavam as mesmas estradas perdidas, anos a fio, portadores da fome. Tornando-se efêmeros como os próprios relatos de suas aparições.
Castigavam a surdez alheia, fazendo a fome gritar mundo afora, sem fastio, com fome de tudo.  
Chegara ao cais da cidade, muitos e muitos anos atrás. Entrava e saía do bairro velho, em suas peregrinações. Guardava os trapos remendados do que fora seu filho, sua fome, em uma velha valise, que no decorrer dos anos mudava de forma. 
Era seguida pelos cães abandonados, guiados pela voz sussurrante de suas falas desconexas.
Nas noites em que fazia frio no bairro velho, vestia a colcha de retalhos que fora seu rebento e dormia, a sonhar com as eras passadas, vigiada pelos cães, em matilha deitado ao seu redor.
Foi testemunha da chegada das mais diversas criaturas que se espalharam pela cidade, vindas do porto. 
Ainda haveria de testemunhar as novas criaturas nascidas na aurora da ciência, que  convergem para o velho bairro, ávidos por derrubar e destruir os deuses velhos que moram nos escombros dos sobrados, para erguer suas torres em homenagem a si próprios. 


quarta-feira, maio 20, 2015

Ítaca



Volto, depois de anos. Ulisses às avessas. 

Volto a partir, depois de anos.
Ao mar jogo os despojos de conquistas distantes. Só me sobra o corpo, que jogo junto às peças de metal frio sem valor para aqueles que não os tem por serventia.
Homem ao mar. Casca de semente que já se tornou árvore, que já servira de casa para aves, roedores, lagartos e outras plantas.
Hoje, casa de cupins, de famílias e famílias de castas diferentes a se erguerem da queda do tronco.
Volto, depois de anos.
Para a terra, de onde voltarei a partir.
Para uma Ítaca que nunca existiu.





segunda-feira, maio 18, 2015

O Quereres



Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

(Caetano Veloso)

quinta-feira, abril 30, 2015

A fome



Fumo outro cigarro.
Olho as nuvens, passando esparsas no céu estrelado de um quarto crescente.
Sopro desejos pelos tragos do cigarro. Cosmonauta, preso ao chão, à sentir saudade de ver a terra do espaço.
A fome, a rondar as ruas desertas das madrugadas, à escuta dos sussurros.
Vejo o mundo, do alto do terceiro andar. Escuto o lamento noturno dos viúvos, ensurdecedoramente silencioso na madrugada.
Sopro nuvens, me atirando do parapeito noite após noite.
A fome ronda o quarteirão. Olho para ela, iluminado pela brasa do cigarro a acabo de acender.
No coração das trevas, a fome.
Há fome.
 

sexta-feira, abril 24, 2015

Da menina


Descobre o peito 
Pinta a boca e beija o espelho
Que reflete a silhueta que você acabou de descobrir
Perfuma a nuca,
Perfuma o pulso,
Sente o seu perfume
 E sai de salto por aí


(Tulipa Ruiz)

quarta-feira, abril 22, 2015

Baú de ossos



Olho a chuva pela janela do consultório. As copas das árvores revoltas, dançando. Barulhos de carros ao longe.
Fico a olhar, deixando a claridade entrar na sala escura, iluminada pelo abajur de luz amarela. Sou um baú de ossos e segredos. Dos segredos dos outros, pois os meus já não se fazem obscuros para mim.
A silhueta negra de um gigante, à olhar a rua pela janela da sala, como uma estátua de granito. Vejo a mim como um outro, que olha a si como a um outro. Procuro meus óculos no bolso interno do blaser, só para lembrar que os deixei.
Óculos de brinquedo, que uso pra me proteger dos olhares. Não passo de um semblante para os olhares, que vêem tudo, menos a mim.
Passo a mão nos cabelos desgrenhados, lembrando histórias de livros, lendas e profecias. Lembro de também correr na chuva. Entrei num café uma vez, estava com frio, ensopado, com medo. Perdi meu allstar na chuva. Fui levado por elas muitas vezes. Voltei de algumas.
Poderia contar diversas histórias antigas como se eu mesmo as tivesse vivido repetidas vezes, as que vivi, poucas vezes as contei. Escrevo mentiras verdadeiras, teço tramas que irão me prender mais a diante. Eu profecio tormentas.
E no final sempre estou a olhar a chuva, na busca de algo perdido, que encontro no cheiro da terra molhada.
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