quinta-feira, outubro 17, 2013

Entes queridos

O futuro guardava muita coisa ainda por vir naquela primavera do outubro.
E eu me lembrei de você, ó maninha, porque aqui já não estava e deixara muita saudade aos teus amigos, com os quais me encontrava quase que diariamente.
Então olhei ao redor e rezei, ó maninha. Para quem, não sei, porque não acreditávamos nos deuses, mesmo sabendo que todos eles existiam nos pormenores daquilo que ignorávamos. Pedi por proteção para nossa mãe.
            Voltando pelo corredor de árvores em flor, também me lembrei de mim e da conversa que tive sobre os avanços da tecnologia e de como éramos povos primitivos em um futuro-presente.
Da incompatibilidade das lembranças dos nossos filhos e das nossas próprias, do Homo sapiens sapiens que não reconhece a si mesmo em nós primitivos, de valores e lembranças primevas perdidas.
E, cansado da labuta, da luta pela sobrevivência sentei na varanda, a coçar a barba por fazer, sem pensar em nada. Olhei os gatos a andarem sobre os telhados das casas.
Acendi um cigarro escondido e brindei a você e a todos os demais entes queridos que, a bem da verdade, nunca se foram.


BELLE AND SEBASTIAN - THE STATE I AM IN


segunda-feira, setembro 16, 2013

De partida II




Arrumo minhas malas no meio da noite, não tenho sono. Separo um par de Allstar confortáveis.
Minha esposa me conta como tem medo de aviões e eu falo, em vão, sobre taxas de acidentes. Toca uma música antiga do Goldfrapp e eu respiro fundo, estou de partida.
Talvez já tenha partido alguns dias antes, ficando só para me despedir dos amigos, esperando ouvir desejos de um retorno bom, porque no fundo também tenho medo, mas não de avião.
Separo Deuses Americanos para ler na viagem e salvo a Tábua de Esmeraldas para ouvir, talvez o álbum daquela música do Goldfrapp.
Ela dorme enquanto fumo um cigarro na varanda, olhando a vida noturna dos gatos do bairro, na madrugada do domingo pra segunda.
Fiquei de dar um abraço no meu irmão amanhã, de almoçar com a minha irmãzinha, de dizer tchau para os amigos.
Estou feliz.



Happiness how'd ya get to be happiness?
How'd ya get to find love real love?



Happiness by Goldfrapp on Grooveshark

quarta-feira, setembro 11, 2013

Errare humanum est





Porque pensava que poderia voar, acreditara estar acima dos erros.
Sua queda foi enorme, e os que viram o corpo celeste ao longe se deliciaram e tiraram fotografias da queda.
Em chamas a cair. Da cidade prateada, passando por Hades, continuando à cair. 
As Fúrias a rirem da queda, lamentado por não tomarem parte dela, por não serem à elas atribuídas as dores do corpo celeste, que também era homem.
Eu também estava lá, no frio da noite olhando a chuva de meteoros a convite de minha amiga, que morava na fazenda vizinha. Fotografei com a velha câmera zenit de papai.
Sentado na cerca eu vi a queda dos seus sonhos, dos erros que mais tarde eu adulto também cometeria. Porque assim somos feitos das poeiras das estrelas, e entraremos, mais cedo ou mais tarde no Hades, e porque errare humanum est.



domingo, agosto 18, 2013

Fotos





Ah, querida! Na fotografia, não é pra mim que tu sorris. Como também não é o teu nome em minha tatuagem.
Da mesma forma que não é nosso o mundo e que, de comum entre nós, só os desencontros parecem ser as únicas constantes a nos unir.
Na antiga fotografia do baú de carvalho está toda a família, fotografias em preto e branco e de colorido desbotado, com dedicatórias antigas aos tios e padrinhos. Recortes de nostalgias não vividas pelas gerações seguintes aos sarais, bailes e matinês.
Termino por jogar as fotos nem tão recentes junto com as demais, como se pudesse a alegria, a calma e o calor vazar, por osmose, de uma felicidade túrgida, para uma cena árida.
Lembro de uma foto tirada quando estávamos todos juntos, felizes. Sorriamos para o que imaginávamos sermos nós no futuro a olhar nossos sorrisos.
Hoje os sorrisos ficam no escuro da arca, esperando serem redescobertos pelos escafandristas à explorarem nossa cidade submersa.

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