domingo, junho 08, 2014

Resenha: Make good art - Neil Gaiman

 "Façam boa arte.
 Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jiboia mutante? Faça boa arte. I.R. te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.
 "Faça-a nos dias bons também.” - N. G.


Em 2012, o Neil Gaiman fez um discurso para os formandos de artes da Universidade de Artes da Filadelfia. O discurso fez tanto sucesso que foi publicado na íntegra, com a participação do designer gráfico Chip Kidd, que deu uma perspectiva estética muito bacana ao texto, utilizando metalinguagem.
Embora ele seja direcionado àqueles que fazem arte, o texto pode muito bem ser encaixado nas nossas vidas, seja no trabalho, na relação com os outros, seja no nossos projetos pessoais.
Make good art (Faça boa arte) é um pouco da experiência de uma dos maiores escritores internacionais contemporâneos, trazido para nós, jovens de todas as idades, com uma leveza e humor que só poderiam haver nas coisas sinceras.
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Tive o prazer de ler esse livro em uma livraria de aeroporto nos Estados Unidos, clandestina e deliciosamente sem que a vendedora percebesse. Acabei comprando outro livro do Neil Gaiman (que farei também a resenha) para ler no avião. E olhe só que encontro, eu – do alto dos meus 1,93m - tentando me esconder por entre as prateleiras, encontrei algo que falava para mim, que me dizia de amigos queridos e distantes em tão poucas páginas.
Tive vontade de presentear amigos com esse curtíssimo livro de conselhos imperdíveis. Me deu vontade de comemorar os 10 anos do Tardes Quentes e agradecer a todos que colaboraram com esse pequeno espaço perdido da web. Tentei fazer uma boa arte, e olhe só! Só me deixou mais perto de pessoas queridas.

Então façamos boa arte.

* Quem tiver interesse, acabou de ser lançado uma versão em português, pela editora Intrínseca, com a mesma qualidade gráfica do original. É um ótimo presente para dar aos amigos e si próprio.


domingo, junho 01, 2014

Pequenas vaidades





Olhava meu esmalte gasto. Um vermelho que ia da base e se quebrava antes de chegar às pontas das unhas. De certa forma me dava um prazer clandestino olhar para eles.
Eu, que não era dada às grandes vaidades, me agarrava às pequenas com um afinco de quem se segura ao colete salva-vidas. Livros e unhas pintadas. Minhas vaidades e prazeres desnudos, para a todos chocar.
Ficava linda para mim, desejava-me, paquerava-me sem me dar atenção nos cafés. Olhava a mim mesma, linda, passando as páginas do livro com as unhas impecavelmente lindas. Os olhos a fitarem por cima do livro, que me cobria parte do rosto como um véu a esconder os lábios vermelhos, para o nada à procura de ninguém.
Terminava meus livros, quebrava meus esmaltes, descascando-os das unhas.
Minhas pequenas vaidades, das quais me despia em casa, ficando nua das cores e das palavras. Em casa não havia necessidade para elas, porque a vaidade pede os olhos alheios, o desejo do outro. Guardava-me desses desejos sem avareza. Que os olhos se contentassem com o que eu quisesse lhes dar de mim, eu era única e exclusivamente minha.
Saia do banho e perfumava a nuca e os pulsos, só para cair na poltrona e adormecer com o livro em fim acabado, contra meus seios, sob as unhas nuas, me deixando à deriva de mim-mesma, sem coordenadas, esmaltes, livros e olhares.

quarta-feira, maio 21, 2014

Entre as mulheres


Eu também morri um pouco. Tudo bem, eu também morri um pouco outras vezes. Não há muito de mistério na morte, muitos mais são os do mundo dos vivos. Há dois espíritos que vivem no meu apartamento, às vezes elas me visitam, mas nunca falam nada. Talvez não tenham mesmo nada para me falar.
Olho pra ela, pro seu sorriso e penso em tardes quentes e músicas do Belle & Sebastian, porque seu sorriso é leve. As bochechas coradas da pele branca, que contrasta com a minha própria pele mais escura, de um sol que quase nunca tomo.
Enxugo suas lágrimas peço desculpas, todo homem já fez uma mulher chorar. Ela é apenas uma mulher, e eu sou apenas um homem. Um homem para uma mulher.
Me perco entre as mulheres, eu que sou apenas um homem. Sento ao redor delas no trabalho, compartilho xícaras de café, troco cartas, me atrapalho por entre e-mails de saudades e chego em casa e me deito na nossa cama, ao seu lado. Eu, homem solitário.
Eu que me descubro mulher ao revelar uma fragilidade na qual, se traveste uma força que me era desconhecida, que despreza as fibras dos músculos dos braços, da força de tendões, fibras.
Eu enxugo suas lagrimas e rio. Porque ela não está chorando de tristeza afinal, nem eu. Então em vez das desculpas, agradeço, e me permito ser forte ao seu lado, de uma forma nova.
Eu morri algumas vezes e hoje vejo que nem doeu, não dói mais. Deito ao seu lado e sinto o cheiro doce dos seus cabelos e me permito morrer um pouco mais.


quarta-feira, abril 30, 2014

Resenha: Carrie, a estranha - Stephen King


Para fechar o mês, estou postando a primeira de (espero) muitas resenhas de livros legais, que li e gostaria de indicar. Essas resenhas serão muito mais pessoais do que pretensamente acadêmicas, porque já basta das pretensas identidades nas quais nos travestimos no dia-a-dia. Espero que gostem.


Carrie

Esse livro foi um dos livros da minha adolescência, dessa entrada na vida adulta da qual você ainda mantém laços com as fantasias e terrores de uma época breve, mas que ainda mantém seus restos no nosso imaginário.
Foi o livro de estreia do Stephen King, em 1974, que conta a história de Carrie White, aluna do secundário de um colégio o Maine, filha de uma mãe fundamentalista religiosa, que descobre ter poderes telecinéticos em meio ao turbilhão de emoções, vindas na adolescência.
O livro tem uma linha cronológica póstuma, uma vez que usa trechos de documentos (ficcionais) sobre o “Caso White” para estruturar o enredo, que será recontado no preenchimento dessas lacunas, trazendo os pormenores e motivações dos personagens.
Carrie sofre diversas perseguições e humilhações por ser diferente, por não se encaixar nos padrões sociais de um colégio dos anos 70. Sua entrada tardia na puberdade, as pressões sofridas no colégio e no interior de sua própria casa acabam por desencadear o horror.
Carrie. O li durante as férias de janeiro, ao som de “Clarisse” da Legião Urbana, que coincidentemente casou com a temática do livro. Era um livro que também falava sobre mim, salvo todas as devidas referências à ficção científica e ao feminino.
Era um livro sobre o horror, o horror que desencadeia o horror. Pobre Carrie que, sendo a assassina, foi a que mais sofreu; que sua telecinesia nunca fora páreo para os olhares indiferentes, os risos de escarnio; que o horror vinha dos jovens, perfeitos, angelicalmente sádicos.
Revisitando-o, anos mais tarde, já adulto, me deparei com uma breve introdução do próprio autor sobre o motivo que o levou a escrever esse, que seria apenas um conto para ter grana para comprar fraldas. Ele o escreveu para duas meninas, as quais ele conheceu em sua infância, as quais foram vítimas do mesmo horror presente no seu livro. Elas, as quais ele não revela os nomes verdadeiros, não chegaram a tornarem-se adultas, ambas suicidaram-se jovens em anos diferentes.
Um livro que mostra o horror dos normais, o horror dos que sofrem e que também machucam. Um horror que nos convida a pensar e sentir.



quarta-feira, abril 23, 2014

Poesia (*por Nicole Nicolela)




Quero o silêncio do vão
Quebro o silêncio de ir
Quieto, o dispêndio do são
Pousa nos galhos do sol

Mas quer o silêncio do vão
E quer a calma de ser
Desce aos escombros do chão
Da terra em que não vai nascer.





*Nicole Nicolela é escritora do blog “Know My Poetry, Know Me” e esse foi o único poema, belo poema, já publicado no Tardes Quentes de Outono.

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