quarta-feira, janeiro 02, 2013

Dias de Janeiro


Chove, o tempo corre.
Corro contra o tempo.
Corro contra o que me é natural.
Dias de janeiro, calor demais.
Piso no acelerador.
Piso na lama da cidade.
Abro a janela do carro, deixo os pingos de chuva baterem em meu rosto.
Piso no acelerador , corro contra o tempo.
Eu e o pequeno fantasma no banco do carona.


terça-feira, novembro 13, 2012

Gatos no quintal



Arquivo pessoal


Ela era uma gata velha. Preta com peito branco. Tinha o mérito de ser sobrevivente numa cidade cheia de carros, diversas ninhadas paridas e deixadas à própria sorte como ela mesma já fora um dia. 

Contava com a experiência de um animal que já se encontrava em sua quinta vida, não seria mais tão descuidada ou confiante como fora nas duas primeiras.

A conheci em um abril de chuva. Tinha ares de uma felina de grande porte, rainha da cidade de concreto. Acampara uma temporada em meu quintal, período no qual travamos um relacionamento minimamente amistoso.  Eu era para ela um filhote de homem curioso e fácil de lidar (fato do qual soube tirar todo o proveito para sua sobrevivência naquela época).

Dizia-me que não acreditava em Deuses, e achava estranho que alguns animais (como eu) só tivessem apenas uma única oportunidade de viver aqui. Desdenhava dos outros gatos antes de sumir em alguma sombra. Ela disse que só em sua terceira vida aprendeu a usar as passagens que davam em lugares distantes, porém eram difíceis de serem encontradas.  Eu tinha sorte de ter uma delas na sombra da árvore do quintal.

Ela nunca falava das suas duas primeiras vidas, só com certo sarcasmo e humor das demais. Acho que ela gostava de mim, às vezes dizia que eu bem que poderia ter sido um bom filhote, mas que ela não tinha a mínima vocação para ser mãe. 

Conversávamos horas às vezes. Eu sentado, de galochas, à soleira da porta enquanto ela se acomodava ao lado da árvore, protegida da chuva com suas orelhas rasgadas a me fitar. Quando adoeci ela veio todos os dias à janela do meu quarto, mas não dizia mais nada.

No trigésimo quarto dia de sua estada no meu quintal eu soube que ela iria embora. Na verdade já sentia isso a um bom tempo, talvez ela estivesse sem jeito para dizer, mas não era isso. Ela simplesmente disse que estava de partida. Nem olhou pra trás enquanto caminhava para a sombra que a árvore fazia às três horas da tarde e que apontava sempre para o leste. 

Nem me atrevi a perguntar se a veria de novo, nem pude correr até ela por causa da chuva. Só pedira, antes de entrar nas sombras, que não arrancasse a árvore.
Sumiu então. Nunca mais a vi. 

Nos anos que seguiram até mudar de lá, tive diversos visitantes em busca daquela mesma árvore em meu quintal. Alguns amistosos, outros intratáveis. 

Um dos últimos que encontrei era bastante comunicativo, jovem ainda em sua segunda vida. Dissera-me que os gatos e alguns outros animais e seres podiam atravessas certos lugares que serviam de portais para eles. Os melhores eram os das casas velhas, mas geralmente eram usados por espíritos e outras criaturas pouco amigáveis. Disse que eu tinha sorte de ter um bem no meu quintal, e era uma pena que eu não pudesse usá-lo. 

Antes de ir, perguntei por uma gata preta, surrada. Disse que era uma pessoa querida pra mim. Ele, muito prestativo, disse que a vira uma única vez de relance, enquanto conversava com outro gato. 

Disse-me que era uma bela senhora, porém meio estranha. Jurava que havia escutado ela dizer ao outro gato que havia encontrado um de seus primeiros filhotes, que havia perdido muitas vidas atrás. Um filhote-menino.

domingo, julho 08, 2012

O Enforcado e o Cupido



Texto: Luis Magalhães
Ilustração: Tempestade 

Encontrava-se o enforcado mal, enlouquecera - dizia a si mesmo, mas nunca fora ele possuidor de cabeça ao menos em posição normal. Naquele dia como a maioria dos outros, os deuses não tinham muito tempo a perder, preferiam se ocupar de suas próprias vaidades. Sentado com sua harpa em uma nuvem qualquer, o Cupido conseguiu sentir os lamurios silenciosos do enforcado em seu sofrimento, e decidiu que podia dar uma descida. E por que não consolar esse de mundo virado para o ar?

O enforcado vislumbrava o nada, seu olhar perdido indicava que alí já não mais existia uma alma inteira, era um resto, um fragmento de esperança duramente machucado.

-Olá! O que te rouba o sorriso pelo dia, que te apaga o brilho dos seus olhos, e te afasta de todo o mundo? Pareces tão mal, disse o Cupido desfocado, entendendo que ali não era o seu lugar.

-Oi. Oh Cupido, se outrora eu me encontrava na eminência do apertar da corda, hoje já me voga no falso desejo que ela contorça a vida e leve minha dor, antes
sentir a corda a me ameaçar, do que o infortúnio que me fizeste sentir.

-Ô, é de amor que sofres?

Surge nos olhos do enforcado um brilhar fraco como do fim de uma vela que nos seus últimos segundos ilumina todo um quarto. Com voz firme e compenetrado, ele responde: - Sofro da perda, da falta, da fome, da companhia, da voz, do sorriso, do cheiro, do sabor, de sonhar, do ter que, do não ter que, do esperar, de não esperar, de saber, e do não querer. Sofro pela entrega.
  
-Oh enforcado, amar é sofrer, se não te entregas, não podes amar. E se sabes que não sabes amar deverias tirar o verde, antes que ele cresça em espinhos. Raros são os rios que já nascem fortes, eles se transformam pelas águas que recebem. Não procures tirar a fumaça do fogo enquanto a madeira ainda estala. Apegues-te à eterna esperança que, mais cedo ou mais tarde, tudo dê certo, que depois da tempestade vem a calmaria.

- Não sou o louco para blasfemar acusando-te de não conhecedor do amor, amigo Cupido. Mas nenhuma coisa que queiramos que dure pode começar pensando quando vai quebrar. Não se pode separar o explendor das rosas azuis dos seus espinhos, os rios não precisam ser fortes para destruirem campos quando inudam, e muitos rios não diferentes de córregos formam grandes lagos belos e tranquilos. Não ousarei tocar no fogo neste momento que ele consome, o tempo é de esfriar, mas não procuro calmaria.  Tenho a certeza de que antes ter amado e sonhado com o possível sem fim, do que nunca ter vivido o que vivi. No fim, nenhum amor morre, só nos torna mais amados e a outra pessoa mais amada, transformamo-nos em pessoas melhores quando podemos dividir um pouco do que só existe em cada um de nós.

O Cupido encantado:
- Se quando saí de minha nuvem com coração apertado tinha escondido a minha dor de um trabalho mal feito, tu me ensinas que amar é muito mais do que ser amado, é um estado de ignorância de tudo o que não é. É o poder de renascer com a alegria de ter vivido e aprender que o mundo é provado como nossa alma pode provar. Da tua pureza, não posso e não vou-te acalmar o espirito, vou te dar apenas a certeza, que sempre hás de amar.

Luís Magalhães (24 de junho de 2012.) - Direitos reservados.
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Um texto que adorei ilustrar, do meu grande amigo Lulu!

domingo, julho 01, 2012

Depois da Chuva – do arco "Breves histórias de assassinatos e coisas obscuras"


Ele fumava o cigarro, suas mãos tremiam. Olhando para elas se deu conta do quão velho estava. À suas costas estantes e prateleiras abarrotadas de livros nos mais diversos idiomas.Dava mais um trago e se perguntava do que adiantava o conhecimento que tinha: saber ler em três idiomas; confrontar as visões de mundo de Schopenhauer e Nietzsche; saber se, para Camus, responder se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, não são tão fundamentais quanto responder a questão do suicídio.Um velho inteligente. Solitário, como a maioria das pessoas que são muito inteligentes. Sabia que não passaria daquela noite. Saboreou o cigarro como um último pedido. Só lhe tinham sobrado os livros, tinha gastado tudo na última empreitada, em um trabalho que aceitara quase de graça.Cobrava caro pelos seus serviços, era um garoto quando começou a aceitar assassinatos por encomenda. De boa família, culto, enfim, acima de qualquer suspeita. Matava políticos. Tinha uma foto emoldurada na sala em que apertava a mão de Vargas. Acima de qualquer suspeita.Seu último serviço o havia comprometido, sabia que subiam as escadas do seu prédio até a cobertura. Seu último serviço, sabia. O fizera da forma mais deliciosamente bárbara e profana, do que jamais fizera em todo os seus anos de trabalho.Fumava seu cigarro e aguardava ansioso pela sua aposentadoria que subia a paços largos pela escadaria do prédio.Porta arrombada e um tiro seco, silenciador. O corpo do velho em sua poltrona de leitura. Depois da chuva.

quarta-feira, junho 20, 2012

A coisa - do arco "Breves histórias de assassinato e coisas obscuras"

Era madrugada, o tempo tranquilo. Quem havia de sair já o tinha feito a mais de uma hora atrás. Saíram com medo, muito medo. O único que ficara queria mais, estava envolvido em algo que não tinha volta. Não queria voltar, não depois do que aparecera e lhe fora revelado pela pequena coisa que havia passado pela soleira a pouco mais de uma hora ao ser convocado por todos. A coisa continuava lá, magnifica, inominável. E ele adorava. Os demais correram, homens grandes a correr como meninos, exalando medo da coisa. É certo que o jornal da cidadezinha incobriu as estranhas mortes do alienista, o diretor do banco e do filho bastardo do prefeito da pequena cidade de Rios Turvos. Porém todos ouviram gritos na noite, e muito se comentava da pequena confraria que tinham entre si e dos encontros noturnos que tinham no velho monasterio franciscano no qual o bispo se hospedava quando vinha à pequena cidade. O próprio bispo celebrou a missa de caixão fechado dos três. Ele nunca fora tão bem em uma missa. O mês que passou na cidade foi marcado por pequenos sumiços na cidade. A coisa tinha fome. Terminou por comer o próprio clérigo. A coisa ainda vive pelo mosteiro, impedido de atravessar as portas. Ninguém mais se atreve a por os pés por lá.

terça-feira, junho 19, 2012

Espera - do arco "Breves histórias de assassinatos e coisas obscuras"

Esperava como quem espera por algo grandioso. Olhava pelas janelas imensas de vidro o céu nublado de um Recife em junho. Eram tempos de fogueiras. Ardia uma em sua mente. Pensava em tons vermelho-ouro do por-do-sol. Manteve-se calmo, tinha temperança de sobra para os males da vida. Olhava a chuva escorrer pelas janelas, o tempo levemente frio. Quando criança, aguardava anciso pelos pingos de chuva. Ria sozinho, admirava a chuva. Hoje iria matar um homem.

sábado, junho 16, 2012

Vazio

Havia lembrado de algo da sua infância, dessas coisas que ficam perdidas na memória até que algo acontece e isso vem a tona com toda força. Lera em um livro algo que o remetera aos livros que lia na infância. Fumava um cigarro de cravo, nem gostava tanto, e olhava a chuva contra a iluminação do poste. Era o cheiro de terra molhada. Sua máquina do tempo. Ficaria ainda dez minutos a olhar vazio a chuva contra a luz. O cigarro esquecido. Aguardando o fim do mundo.
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