quinta-feira, agosto 01, 2013

Ao sol







Perdi minha mão.
Do toco aberto nasceram flores.
Finquei meus pés no chão.
E cresci em direção ao sol

segunda-feira, julho 29, 2013

À guisa de uma faxina de inverno






“- Acordo de um sonho louco, no qual eu administrava uma franquia de comida tailandesa, às 4 da manhã. Não se dá para ter sonhos tranquilos quando a vida está um caos” – dizia pra si mesmo no escuro, como a um terceiro, tentando olhar as horas no relógio do quarto.

- Ah, meu Deus! Dai-me paciência. Outro dia que vou passar com medo do mundo acabar e desmoronar sobre minha cabeça.

Ele tomava banho e ruminava a mesma velha história, da importância do seu “trabalho”. Tinha que limpar e arrumar as coisas erradas do universo, tal qual uma limpeza de fim de inverno em uma casa grande. Só descansava aos fins-de-semana, e às vezes nem isso.

Quando jovem, fizera um pacto com uma criatura que já era velha quando a lua nasceu e que lhe prometeu algo tão efêmero, porém  magnífico e impossível aos olhos do jovem.

“[...] - Pronto pra assinar? Aqui e aqui – sorria.”

“- Sim, mas que tipo de trabalho eu vou ter que fazer mesmo pra pagar?”

“- Você conhece o mito de Sísifo? Não? Bem, será bem menos vertical do que o daquele garoto bobo. Ah, e assine aqui também. [...]”

Dito isto, passado o pequeno momento de apogeu de seu desejo, assumira a labuta de evitar o caos, ordenando e trocando os objetos das prateleiras de um universo inteiro, a guisa de uma faxina de inverno.

Então ligava o rádio e, para começar, pegava a vassoura, tirando os entulhos debaixo do tapete pensando que, pelo menos, não estava na administração de um restaurante.

terça-feira, julho 16, 2013

A casa de bonecas






Sonho:
Desejo, se você não fosse da família...

Desejo:
Mas eu sou.

Sonho:
Sim. Você é.
Desejo, escute com atenção. Lembre-se disso.
Nós, os perpétuos somos servos dos vivos, não seus mestres. Nós existimos porque eles sabem, no fundo de seus corações, que existimos.
Quando o último ser vivo deixar esse universo, nossa tarefa estará concluída.
E nós não os manipulamos. É mais correto dizer que eles nos manipulam. Somos seus brinquedos. Suas bonecas, se preferir.
E você... Desespero e até a pobre Delírio deveriam se lembrar disso.

Desejo:
Eu... Eu não entendo.

Sonho:
Eu temia que não compreendesse. Muito bem.
Eu lhe direi algo que ENTENDERÁ, irmã-irmão. Mexa comigo ou com os meus novamente, e ESQUECEREI que você é da família Desejo.
Você se julga forte o suficiente para ficar contra MIM? Contra MORTE? Contra DESTINO?

Desejo:
Não.

Sonho:
Lembre-se disso da próxima vez que se sentir inspirada a interferir nos meus assuntos.
Lembre-se bem.

“E Desejo caminha pelas câmaras de seu coração. Ela caminha pelo Limiar, sua cidadela e sua proteção. E se pergunta:”

Desejo:
O que ele quis dizer? Que nós somos brinquedos deles?
Os seres humanos são criaturas de Desejo. Eles se contorcem e se dobram conforme minhas exigências. Se eu pensasse de outra forma, teria enlouquecido, como Delírio. Ou abandonaria meu reino como nosso irmão perdido.
Pobre Sonho...
Eu realmente o incomodei dessa vez.








(Gaiman, Neil.  in: Sandman: A casa de bonecas. Ed. CONRAD - VERTIGO, p. 226-227)


sexta-feira, junho 14, 2013

O Click










- Pronto, lá vai!
- Você sabe que não gosto de tirar fotografias.
- Ah! O que tem guardar uma lembrança?
-Temos muitas outras lembranças que podemos guardar.
- Temos sim, e essa é uma delas.
CLICK
- Ei eu não estava esperando!
- Essas são as melhores fotos, inesperadas, rs.
- Assim como os melhores beijos!
SMACK!


quinta-feira, maio 30, 2013

A maçã




Minha avó contava que há muitos anos, sua velha, velha avó lhe contou uma história sobre a maçã.
- A maçã, dizia ela, tinha sido tirada do peito de um menino da vila. Ele ficara oco. Crescera oco.
- Fora roubado, ainda no berço, como fora profetizado pelos mais velhos. A maçã fora levada pelo corpo seco, não se sabia para onde.
A maçã brilhava como o sol, o último fruto dos deuses que estavam morrendo naquela época. O pomo da discórdia que tapava a última armila daquela época, um último vórtice, se fora para sempre.
Junto com a maçã fora levada a vida da aldeia. A criança com a maçã no peito era a primeira a nascer nas últimas décadas. A vila caíra em trevas, como em trevas ficara o peito aberto do menino.
Vovó tinha a pele cinza, e me contava a história do alto de sua cadeira de balanço, enquanto, sentado aos seus pés imaginava o menino. Ela contara do declínio da esperança de uma aldeia que era absorvida pelo buraco negro no peito da criança.
Como tudo eram trevas, não havia como fugir da vila, sem voltar para o centro e ser sugado pelo buraco faminto.
Sua avó foi a única a fugir, usando um pedaço de vela da babilônia, procurando abrigo em uma terra muito diferente da sua, com uma língua que ela custou a aprender.
Sua pele era cinza, como a da minha avó. Como a minha própria pele.
A história ainda não explicava porque nossa pele era cinza, mas, quando a avó calava e fechava os olhos, sabia que não teria mais nada dela.
Então eu calava também.
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