segunda-feira, abril 30, 2012
domingo, abril 22, 2012
21 de abril - Oito anos do Tardes Quentes de Outono
Pois é isso mesmo. Oito anos.
Escrevo a oito anos ininterruptos as mais diferentes coisas. Reflexões,
diários perdidos, contos e histórias, na maioria e quase sempre sobre
lembranças, das que já se foram às que ainda estão por chegar.
Estou longe dos 19 anos com os quais comecei a escrever, porém acabo por
me aproximar um pouco mais dos meus próprios oito anos.
Oito anos de letras, palavras que não param de se multiplicar.
E hoje vejo que nesses oito anos, muitas dessas histórias não foram só
endereçadas as mais diferentes pessoas e coisas, mas também a quem simplesmente
quisesse lê-las. A quem acabava parando sem querer por aqui. Para mim também.
Até bem pouco tempo atrás eu não sabia o quanto e não me conhecia tanto,
até ler alguns posts antigos, dos
mais diversos dias desses oito anos. Conheci e me desconheci estrangeiro, órfão,
inquisidor, engraçado, incoerente, cafona, contador de histórias por vezes.
Leio os contos que não recordo que escrevi e me divirto. Sou mais um
estranho que caio por aqui, leio e esqueço do que li. As vezes sou você mesmo rs.
O melhor desses oito anos foi ter podido ter contato com as mais diversas
figuras presentes e efêmeras que já passaram por aqui. Das que tive a
oportunidade de conhecer em pessoa, das quais já conhecia e sempre estiveram
por aqui, das que fiquei amigo e tenho a sorte de confrontar idéias, das que
passaram pouco tempo e deixaram amizades e saudades, às que simplesmente
passaram sem deixar vestígio por essas bandas.
Ainda continuo acreditando que as palavras trazem afeto, e afeto liga as
pessoas. Obrigado a todos que tornaram e ainda tornam esse blog um lugar de
afeto.
Obrigado a todos!
sexta-feira, março 16, 2012
O menino ou Pedaços de guardanapo
Continuo a
escrever em pedaços de guardanapo. Fiquei sabendo que meu pai fazia o mesmo. Não
sabia.
Meus
guardanapos são das mesas de café, não dos bares como os seus. Não sou boêmio.
Tenho um pouco
da alma e da vontade de transgressão boêmia. Não sou boêmio. Não como ele.
Vejo as
pessoas presas no elevador panorâmico atrás de mim. Peixes num aquário, animais
em exposição. Somos
todos.
Escrevo em
pedaços de guardanapo que numero com pequenos algarismos para delimitar as páginas.
Café e pão de
queijo. Faço um calço com três saches de açúcar e ponho embaixo da mesa. Posso escrever
enfim.
Que sou
menino. Dizem. “Esse menino”. Dizem menino quando me apresento um homem. Falam
do entusiasmo de quem começa quanto trago os calos de quem vem percorrendo
longo caminho.
Olho no
espelho e vejo a barba por fazer, algumas olheiras. Vejo o homem. É como se
homem fosse o fato consumado, que definição engessada de si mesmo se chamasse
homem. Sou um homem por fazer.
Futebol,
cerveja, mecânica, matemática desculpem. Nada contra, mas estou mais a música,
as contas, os cafés e a literatura.
Se sou menino,
o sou quando me permito ser, quando o brincar de desenhar e escrever se
traveste nas coisas sérias do cotidiano.
Mas que
mentira. O menino me escapa. Ao homem escapa o menino, como se fosse mais
treloso agora, depois de velho, do que quando era realmente menino.
Isso que me
escapa ao escrever em pedaços de guardanapo à surpresa de saber que meu pai
fazia o mesmo.
Sou um homem
diferente dele. Gosto do homem que me tornei. Homenino em si mesmo.
Com letras e
rabiscos nos pedaços de guardanapo da cafeteria.
domingo, fevereiro 12, 2012
A Baba Yaga do Bairro Velho – do arco “personagens efêmeros do Recife Antigo”
Diziam que ela
havia chegado junto com os holandeses. Era mais uma das estranhas a
desembarcarem no porto da nova colônia holandesa. Russa, com certeza.
Provavelmente
desembarcou pela noite, trazendo apenas um almofariz e uma vassoura de palha,
ninguém falava com ela, mas comentavam de como uma mulher idosa como ela havia
sobrevivido à viagem de navio.
De certo que
ela sobreviveu e se adaptou aos primeiros anos na cidade Maurícea, devido à tolerância
religiosa, onde já falava com forte sotaque. Pouco se sabe o que lhe aconteceu
nos séculos que seguiram após a insurreição e a guerra dos mascates, mas
sabe-se que sobreviveu.
Sua fama não
era, e ainda é pouco, conhecida desse lado do oceano. Deixou para trás uma casa
vedada por ossos, alicerçada sobre pés-de-galinha, de certo apodrecida e levada
pelos séculos. Ela sobreviveu, as mudanças. Ela, seu pilão e sua vassoura.
Acompanhou as mudanças dos séculos, as construções das pontes, os aterramentos,
migrando de bairro em
bairro. Usava o pilão não mais para voar, mas para bater
paçocas de carne seca e a base das tapiocas.
Há quem diga
que já a viu no Alto da Sé, mas é pouco provável, ela gostava mais do porto e
raramente foi muito longe das pontes que levam ao marco zero.
Terminou seus
dias vagando de casarão em casarão antigo a observar a decadência do Recife
Antigo, quase sem falar mais seu idioma materno. Já não lembrava mais as
palavras mágicas em Russo, e as ervas que usavam nas poções não se encontravam
por aqui. Ficara louca, ela, que era uma das figuras mais poderosas do imaginário
de suas terras, não lembrava mais o que a trouxera para esta terra quente, úmida,
cheia de mangues e mosquitos.
Os últimos anos
de sua estadia foram atestados por drogados e prostitutas que desapareciam
pelos casarões. Ainda no fim do século passado fora vista uma única vez na lua
cheia rindo dentro do almofariz voando pelas ruelas e apagando seus rastros com
a vassoura de palha.
Se bem
perguntarem sobre uma velha estranha com um pilão, provavelmente muitos não
saberão dizer. O bairro está mais vazio a cada década, uma diáspora iniciada no
século passado. Todos levados pelos bondes que não mais circulam.
domingo, fevereiro 05, 2012
O último dândi - do arco "personagens efémeros do Recife Antigo"
Trilha sonora: Blues da Piedade - Cazuza
Não tinha muito
dinheiro, isso era verdade, mas ele vivia da própria fantasia que todos temos
de ser aquilo que, enfim, não somos somente.
Respirava
músicas de Cazuza, sendo o assassinato da flor seu mantra diário. Nas noites úmidas
de diversos sons ele caminhava pelos becos e ruelas que levavam por fim a praça
do arsenal, e há quem dissesse que já o vira de cartola e bengala. Talvez no
carnaval, afinal os bares de radiolas-de-ficha do antigo bairro não eram
convidativos para alguém nesses trajes, embora se vissem jovens de negro e
alguns de sobretudo suando horrores nas noites quentes do bairro.
Não era uma
figura folclórica do antigo bairro decadente de prédios e sinagogas recém-restauradas.
Não era como o vendedor de flores de papel ou a velha dos cachorros. Era quase
uma presença desencarnada, daquelas que se percebem de relance quando se olha
sem querer para o lado.
O último dos dândis
em uma época em que a imagem pesa mais do que o conteúdo, em que o belo fere àquele
que dele não deveria sentir uma única falta, onde as pessoas andam com espelhos
à face, olhando em todas as direções.
Há quem diga
que o já viu tomando uma cerveja em frente ao antigo Cabaret, ou que já o viu
ter o braço carimbado para entrar nas antigas festas que tocavam músicas dos
anos 80 na velha panquequeria após a maia-noite, ou que já o vira sentado
defronte para o monumento fálico do cais, cantado Blues da Piedade enquanto
esperava pelas cinco horas da manhã para pegar a condução para casa.
Mas já faz
muito tempo. Tempo da morte da velha dos cachorros e da grande maioria das
figuras imaginárias que povoavam as ruas que hoje só ficam cheias nas feiras de
domingo. Dizem que era uma mulher, que de perto não tinha como se confundir, mas
na verdade ninguém dá à mínima, como não damos a mínima praquilo que não nos
faz falta.
A noite chega,
os casarões fecham suas portas. Fiteiros e pessoas na rua. De longe o som de
uma ou duas alfaias. Chão de paralelepípedos com trilhos de bondes que não
circulam a muitas décadas. Levaram todos.
sábado, janeiro 28, 2012
Cafuné ou Escuto a música de uma nave que se aproxima
O fato é que ando fazendo novas ilustrações e voltei a ter vontade de mexer no Photoshop. Não que eu tenha habilidade com cores, luz e sombras, mas que tem me dado vontade de brincar com algo além do preto e branco, ah isso tem.
Após uma semana de perdas tive o grande presente de estar reunido com amigos e seus cachorros no sábado. É ótimo ter amigos artistas, compadre e comadre então nem se fala. Tarde colorida, chuva só no finalzinho, clima agradável, grama, crianças e cachorros.
Levei um cachorro invisível, só eu podia vê-lo. Ficou brincando por lá, cheirando os outros cachorros sem eles perceberem. Ah danado! Voltou comigo no carro sem problemas.
Falei com Lula que andava com vontade de desenhar novamente e que pensei em fazer alguma brincadeira com as músicas da banda dele: A nave.

Banda bacana, com músicos extraordinários. As músicas então... cotidiano real, nossas vidas. Do pancadão ao passeio pela praia com o cachorro Oscar.
Pra terminar esse post de agradecimento pela ótima tarde de sábado, uma música dA Nave (é só apertar play).
Após uma semana de perdas tive o grande presente de estar reunido com amigos e seus cachorros no sábado. É ótimo ter amigos artistas, compadre e comadre então nem se fala. Tarde colorida, chuva só no finalzinho, clima agradável, grama, crianças e cachorros.
Levei um cachorro invisível, só eu podia vê-lo. Ficou brincando por lá, cheirando os outros cachorros sem eles perceberem. Ah danado! Voltou comigo no carro sem problemas.
Falei com Lula que andava com vontade de desenhar novamente e que pensei em fazer alguma brincadeira com as músicas da banda dele: A nave.

Banda bacana, com músicos extraordinários. As músicas então... cotidiano real, nossas vidas. Do pancadão ao passeio pela praia com o cachorro Oscar.
Pra terminar esse post de agradecimento pela ótima tarde de sábado, uma música dA Nave (é só apertar play).
Você pode encontrar A Nave em: anavemusica.com.br/
No Facebook: facebook.com/anavemusica
Download do EP Clicando Aqui
quarta-feira, janeiro 18, 2012
Irmãos em linha reta
Arquivo Pessoal
Trilha Sonora: Mother Goose - Jethro Tull
Estou dirigindo pela avenida em linha reta. Escuto Jethro Tull e Joan Baez com meu irmão ao lado.
Pergunto quando vamos montar finalmente a Blues Brothers Company
para tocar-mos versões do Jethro Tull
e violão e flauta transversal somente, então ele ri e diz que eu é que não
chamo pra ensaiar.
Janelas abertas, o vento bate enquanto conversamos sobre
sobreposições musicais em
harmonia. Rimos de nós mesmos, como se não nos víssemos há
muito tempo. Realmente não nos vemos a tempo. Não vivemos mais no passado.
Somos irmãos, estrangeiros em uma cidade que nos acolheu e
nos ensinou muito, ainda ensina. Acelero o carro em linha reta, escutamos Mother Goose, Boureé, Locomotive Breath,
The Whistler.
Conversamos digressões em cima de digressões, como se a vida
não fosse feita de bifurcações de bifurcações anteriores. Digo pra ele ter
cuidado quando for trabalhar de bicicleta. Ele conta sobre os banhos de lama
que já tomou dos carros em dias de chuva. Eu rio.
Estou lhe dando uma carona para casa, ele me dá aulas de folk music. Logo estamos falando das
intemperanças das nossas histórias, dando voltas nessa coisa que tende a se
repetir, nesse eterno retorno do que se perde nas entrelinhas das histórias de
todos nós.
Chegamos, apertamos as mãos e recebo um obrigado.
Ensaio marcado nesse sábado.
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