sábado, junho 16, 2012
Vazio
Havia lembrado de algo da sua infância, dessas coisas que ficam perdidas na memória até que algo acontece e isso vem a tona com toda força.
Lera em um livro algo que o remetera aos livros que lia na infância.
Fumava um cigarro de cravo, nem gostava tanto, e olhava a chuva contra a iluminação do poste.
Era o cheiro de terra molhada. Sua máquina do tempo.
Ficaria ainda dez minutos a olhar vazio a chuva contra a luz. O cigarro esquecido. Aguardando o fim do mundo.
quarta-feira, maio 23, 2012
Diários de Buenos Aires
O avião pousa, após momentos intermináveis de turbulência. Chove bastante, é verdade.
Procuramos a fila da imigração e só somos liberados após registro das digitais, identidade carimbada e foto para a imigração já depois da meia-noite. Empurro as malas, ansioso por fazer tantas coisas, mas com certeza dormir primeiro.
Chego em Buenos Aires nos últimos dias do outono. Perto do hotel no Soho folhas de três pontas despencam levemente das árvores e cobrem o chão da rua.
Acordamos tarde. O sol costuma acordar tarde também. Tomamos café no hotel. É o primeiro hotel que fico que toca rock como música ambiente. Juro que escutei AC/DC, Queen, Smiths, Beatles, Stones. Era muito divertido tentar adivinhar qual banda tocava baixinho toda vez que passávamos pelos seus corredores.
Ficamos na enorme Palermo no soho, a poucos minutos de seus bosques. Passeamos pelo centro, percorrendo corredores e avenidas de lojas, cafés, livrarias, artistas de rua e restaurantes, tropeçando em brasileiros a cada 3 minutos e meio. Acolhedor. Convidativo. Rimos e nos enrolamos para nos comunicar, é tão engraçado que quase não incomoda as freqüentes investidas (educadas, digamos de passagem) das diversas pessoas que oferecem pacotes com shows de tango e jantares.
Descubro que os hermanos adoram Beatles e que os punks são mais bem arrumados e aparentemente mais limpos do que os do Brasil. E mais importante, os mapas de lá funcionam. Caminhamos e damos de cara com protesto de trabalhadores, escoltados pelas tropas de choque. Nada que altere os olhares e o caminhar apressados das pessoas que percorrem o centro da cidade e passem ao lado sem se interessar muito pelo que acontece ao seu lado.
Pagamos um peso e vinte e cinco centavos no ônibus e percorremos o longo caminho que leva do centro de volta a Palermo Soho, passando por Belgrano. Olho pela janela do velho ônibus, que parece ter saído dos anos 60, e vejo a luz que ainda se infiltra pelas frestas dos prédios. São mais de 18h e o céu se degrada em vermelho, laranja e amarelo. Está mais frio. Acompanho o nome das ruas e traço o percurso no mapa que trago na outra mão. Olho pra ela e pergunto o que faremos a noite, enquanto o ônibus segue seu curso. Então ela diz:
- Você não perde por esperar, rs.
sexta-feira, maio 11, 2012
Diários do Rio: Encontros
São coisas com as quais não deixo de me surpreender. Essas coisas que são levadas pelo vento, efêmeras.
Pães quentinhos, café, suco de laranja e bolo. Manhã de domingo levemente fria. Entre um gole e outro, rimos em uma pequena cafeteria de tijolos aparentes, em tons de marrom, baunilha e vermelho. Rimos porque o vapor do café embaça meus óculos quando bebo.
Conversamos sobre o que não reconhecemos de nós mesmos onde estamos. Falamos sobre choques de realidades sociais no Rio. Bebemos nosso café na Gávea, bela e arborizada. Favelas ao longe. Ostentação e necessidade. Bem que dá vontade, mas resisto em me sentir culpado pelas mazelas daqueles que na sua luta diária encontram as mais diversas formas de viver, sobreviver, amar.
Caminhamos pelos intrincados passeios do jardim botânico. Lembro-me de como achava que as plantas eram o ápice da perfeição. Fincadas na terra, erguendo-se ao sol, silenciosamente a moverem-se ao sabor do vento. Hoje não vejo muita diferença da terra que acolhe as raízes das palmeiras imperiais, que fazem fila indiana até o chafariz central, da terra e da poeira da Bahia antiga cantada por Vinícius, que na infância me eram constitutivas e que hoje se misturam com a terra do mangue pernambucano de Chico.
Caminho pelo jardim botânico e encontro com minhas próprias raízes.
No centro entramos em igrejas. Ela faz pedidos. Não sei o que fazer. É belo, não pela imensidão física, mas pela imensidão em si. Não consigo chegar muito perto da Candelária. Os sons de tiros antigos ainda ecoam muito alto. Fico muito desconfortável. Penso no homem da gravata florida de Jorge Benjor quase como um mantra enquanto me afasto de lá.
Não tive sorte com os espetáculos, realmente não vi uma peça. Aprendi sobre outras coisas. Continuo a aprender. Aprendo enquanto faço as malas para pegar o voo para Buenos Aires. Aprendo no caminho até o aeroporto. Irei continuar aprendendo com meus encontros comigo mesmo até chegar aonde, não sei.
segunda-feira, maio 07, 2012
Diários do Rio: Aprendizagem
Passeio pela praia. Estou no Rio.
Bicicletas, árvores e corpos em constante tentativa de desnudar-se. Caminho pelas ruas e bairros de um Rio cantado e versado nas velhas bossas novas. Rio das opulentas ruas e shoppings e das favelas visíveis que circundam a cidade.
Mendigos e carros importados se cruzam diariamente, teatros e mais teatros. Penso nas peças que gostaria de ver. Talvez veja alguma. Tento me acostumar com o que encontro de diferente de mim pelas ruas. Artistas famosos sem maquiagem passam despercebidos pelas ruas, idosos e crianças tomam conta da Gávea no domingo de manhã.
Aprendo com a cidade e suas situações. Aprendi a trocar um pneu hoje. Aprendi que ficar calado no taxi ajuda a enganar o taxista para que ele não dê voltas desnecessárias para me levar a algum lugar. Aprendi que sorrisos são sorrisos em qualquer lugar e que na grande maioria das vezes são retribuídos.
Minha esposa compra sapatos. Compro livros. Conversamos e rimos no Rio. Combinamos de ir aos museus e assistir a alguma peça. Somos estrangeiros, em terras estrangeiras para nós.
Lembro constantemente de Um trem para as estrelas de Cazuza e Gil.
segunda-feira, abril 30, 2012
De partida
Arquivo pessoal
Faço as malas. Vou partir e imagino o que verei e o que estarei por rever.
Não há espaço suficiente para o que levo na bagagem.
É tarde de domingo e sinto o fim do mormaço das 16h, sinto as pequenas gotas de suor em minha testa e imagino coisas bobas, situações bobas e as pessoas que encontrarei.
Estou de partida.
Parto também para minha velha terra, cuja poeira das tardes me é constitutiva. Caminho pelas ruas de paralelepípedo daquela cidadezinha em minha mente. Passo pelos bairros e pelas usinas. Percorro um passado com o qual não me identifico mais. Vou percorrê-las realmente em algum momento da minha viagem, mas serei um homem diferente a andar pelas ruas que percorria de bicicleta, pelas quais voltava da escola pra casa.
Escolho dois bons livros para levar, acomodo entre as camisas. Respiro fundo como se fosse mergulhar. Mergulho em lembranças ao escrever. Estou de partida. Levo livros, amores e amigos comigo. Sei que volto.
domingo, abril 22, 2012
21 de abril - Oito anos do Tardes Quentes de Outono
Pois é isso mesmo. Oito anos.
Escrevo a oito anos ininterruptos as mais diferentes coisas. Reflexões,
diários perdidos, contos e histórias, na maioria e quase sempre sobre
lembranças, das que já se foram às que ainda estão por chegar.
Estou longe dos 19 anos com os quais comecei a escrever, porém acabo por
me aproximar um pouco mais dos meus próprios oito anos.
Oito anos de letras, palavras que não param de se multiplicar.
E hoje vejo que nesses oito anos, muitas dessas histórias não foram só
endereçadas as mais diferentes pessoas e coisas, mas também a quem simplesmente
quisesse lê-las. A quem acabava parando sem querer por aqui. Para mim também.
Até bem pouco tempo atrás eu não sabia o quanto e não me conhecia tanto,
até ler alguns posts antigos, dos
mais diversos dias desses oito anos. Conheci e me desconheci estrangeiro, órfão,
inquisidor, engraçado, incoerente, cafona, contador de histórias por vezes.
Leio os contos que não recordo que escrevi e me divirto. Sou mais um
estranho que caio por aqui, leio e esqueço do que li. As vezes sou você mesmo rs.
O melhor desses oito anos foi ter podido ter contato com as mais diversas
figuras presentes e efêmeras que já passaram por aqui. Das que tive a
oportunidade de conhecer em pessoa, das quais já conhecia e sempre estiveram
por aqui, das que fiquei amigo e tenho a sorte de confrontar idéias, das que
passaram pouco tempo e deixaram amizades e saudades, às que simplesmente
passaram sem deixar vestígio por essas bandas.
Ainda continuo acreditando que as palavras trazem afeto, e afeto liga as
pessoas. Obrigado a todos que tornaram e ainda tornam esse blog um lugar de
afeto.
Obrigado a todos!
sexta-feira, março 16, 2012
O menino ou Pedaços de guardanapo
Continuo a
escrever em pedaços de guardanapo. Fiquei sabendo que meu pai fazia o mesmo. Não
sabia.
Meus
guardanapos são das mesas de café, não dos bares como os seus. Não sou boêmio.
Tenho um pouco
da alma e da vontade de transgressão boêmia. Não sou boêmio. Não como ele.
Vejo as
pessoas presas no elevador panorâmico atrás de mim. Peixes num aquário, animais
em exposição. Somos
todos.
Escrevo em
pedaços de guardanapo que numero com pequenos algarismos para delimitar as páginas.
Café e pão de
queijo. Faço um calço com três saches de açúcar e ponho embaixo da mesa. Posso escrever
enfim.
Que sou
menino. Dizem. “Esse menino”. Dizem menino quando me apresento um homem. Falam
do entusiasmo de quem começa quanto trago os calos de quem vem percorrendo
longo caminho.
Olho no
espelho e vejo a barba por fazer, algumas olheiras. Vejo o homem. É como se
homem fosse o fato consumado, que definição engessada de si mesmo se chamasse
homem. Sou um homem por fazer.
Futebol,
cerveja, mecânica, matemática desculpem. Nada contra, mas estou mais a música,
as contas, os cafés e a literatura.
Se sou menino,
o sou quando me permito ser, quando o brincar de desenhar e escrever se
traveste nas coisas sérias do cotidiano.
Mas que
mentira. O menino me escapa. Ao homem escapa o menino, como se fosse mais
treloso agora, depois de velho, do que quando era realmente menino.
Isso que me
escapa ao escrever em pedaços de guardanapo à surpresa de saber que meu pai
fazia o mesmo.
Sou um homem
diferente dele. Gosto do homem que me tornei. Homenino em si mesmo.
Com letras e
rabiscos nos pedaços de guardanapo da cafeteria.
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