domingo, dezembro 26, 2010

Cansaço



As palavras me escapam. Fico um tempo a olhar a barra piscando no computador, uma folha em branco a minha frente.

Me escapo às palavras enquanto escuto alguma música do Vince Guaraldi nos fones de ouvido.

A verdade é que estou cansado, o corpo já não acompanha a cabeça a alguns dias. Almoço de natal na padaria, jantar a dois com direito a peru e vinho, após voltar do trabalho. Trabalho, almoço em família e trabalho no dia seguinte. Mente a todo vapor em 2011, o corpo se arrastando, tentando chegar ao fim de 2010.

Pois a meta é a seta no alvo, mas o alvo na certa não me espera, nem espeta.

Irei passear no laguinho com mais calma da próxima vez, irei terminar o curso de francês da próxima vez, irei relaxar um pouquinho da próxima vez.

Já é domingo, 1:12h, estou feliz. Vou tomar toddynho e dormir. rs

Sei que, pelo menos esse ano, não vou ter de me preocupar com os espíritos dos natais passados, até eles precisam de descanso.

Vou guardar as ferramentas para amanhã, ando construindo rotinas, arquitetando e empreitando o cotidiano. Tanto o que fazer... que sono.

Na verdade eu queria era trazer um conto sobre as folhas de março, que forravam o chão de paralelepípedo da rua estreita. Lá tinha um garoto que costumava sempre descer a rua ao fim da tarde, trazendo sempre consigo as mesma..

domingo, novembro 07, 2010

O velho



O velho, sentado na cadeira de balanço a olhar a rua do terraço. Os 89 anos pesam em seu corpo.

Colegial incompleto, faculdade da vida.

Diz por vezes que só espera a morte e traz uma leveza e delicadeza que destoa gritantemente das rugas, cicatrizes e manchas que embrutecem seu corpo. Os dedos inseguros e enormes, como feito de pedra, a passarem na testa enrugada indo até a nuca lisa.

O velho, dormindo na cadeira, arrebatado pelo sono trazido pelos ventos quentes das tardes de outubro. Já não deve mais caçar quimeras, nem se apavorar diante do futuro, como se seu corpo fosse muralha protetora para seu espírito sem ambições.

Uma vida tranqüila, filhos, netos. A riqueza de toda uma vida vivida em seu devido momento, todas as conquistas, hoje, não são mais do que as derrotas.

O futuro, que por vezes me aterroriza, e o passado que por vezes me assombra, não se refletem em seus olhos, que começam a serem tomados pela catarata. Ele sabe que o futuro se faz no presente e que o passado não tem poder sobre este, somente os fantasmas que trazemos conosco.

Aprendo com seu silêncio. Sentado na varanda, bocejo. A tarde, arde.

Até o próximo outono será uma eternidade.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Christmas Time Is Here...




Às vezes me pego lembrando dos natais passados. Dos natais quentes de verão tenho lembranças doces, daquelas que chegam com o cheiro da poeira de dias secos, que chega com a lembrança das rosas-meninas do canteiro que minha mãe havia plantado.

Algumas vezes ponho para tocar Christmas times is here e de repente estou lá, colhendo os gravetos junto com meus pais e meu irmão, para levar para casa e fazer nossa árvore de natal de galhos retorcidos, com aquelas bolas coloridas e frágeis, que mal podiam tocar o chão e se quebravam, tiradas cuidadosamente da caixa velha, lotada de enfeites de natal, que trazia o cheiro de natais ainda mais antigos.

Não comemoro o natal hoje em dia, acabo lembrando dele em outras datas. Procuro comemora minhas alegrias diárias, e algumas tristezas também, porque elas deixam as alegrias mais doces.

Hoje minha imaginação demora mais a alçar vôo, as vezes volto um pouco pra pegar impulso nos ventos das boas lembranças.

sábado, setembro 04, 2010

A filha do feiticeiro (ou quando virei peixe e fui ao fundo do oceano)

Ilustração de Chris Conover


Aonde vais ninguém sabe.
Talvez ao mesmo local aonde vai a fumaça que sai pelos meus dedos nos dias de chuva. Lembro da filha do feiticeiro que morava no fundo do mar.
Lembro de não saber aonde ias, agora que sou jogado ao mar, em forma de peixe. Nado sem rumo.
Pelas minhas guelras, não só o oxigênio filtro da água salobra, mas todas as lembranças da última semana, dos amigos que deixei sem notícias minhas, das inseguranças geradas pela falta de compreensão, daquela velha canção religiosa que meu pai cantava para que eu dormisse quando pequeno.
Nado fundo por já ter corrido o mundo como lebre e por já ter voado sobre os famintos, como ave.
Logo estou pendurado no grande candelabro, como bobo-da-corte, como na lenda viking, em que os milhares de peixes aparecem voando e se tem que descobrir qual deles comera o coração.
O dedo de minha mãe apontado para as gravuras, o som de sua voz ao falar os nomes dos personagens sem sotaque a ecoar na caverna pintada que guardava todo o alimento do mundo.
Aonde vais, ninguém sabe, tanto quanto eu. Tanto quanto afundo mais na água escura, ínfimo a me perder no oceano. Cachalotes me sobrevoam, gritando seus nomes. Talvez a sigam, talvez gritem seu nome.
Aonde vamos ninguém sabe. Nem ao menos nós. Nós nas cordas que nos atam uns aos outros. Outros rumos possíveis de tomarmos.
Deus pôs um sorriso no seu rosto, pelo menos na última vez que te vi.
Peixe. Nado a fundo cada vez mais. Trevas com tons de azul e esmeralda, sinto a água gelada em minhas escamas. Vejo algo. Cada vez mais próximo. Espere... estou vendo melhor. Sim, sim...

Trilha sonora: ponha a trilha sonora do post ao ler


*Referências tiradas da obra de Chris Conover e Chris Martin.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Lendas de família ou As árvores.


As árvores sempre me têm histórias para contar, sempre que passo por aquela ruela, que cruza a universidade católica. Quanta sabedoria. Demorei anos para compreendê-las.

Uma delas disse que meu pinheiro mandou lembranças.

Na minha antiga casa, tinha um pinheiro no quintal de concreto, o qual cumpria as funções de árvore de natal durante as festividades e casa de pássaros no resto do ano.

Em casa havia a lenda de que se o pinheiro passasse da altura do cume da casa, alguém nela morreria. Se era verdade ou não, o fato era que papai sempre deixava o pinheiro um metro abaixo do cume da casa.

Eu ainda não entendia o que elas falavam nessa época. Não chegavam a ser palavras e eram jogadas ao sabor do vento como pólen.

Elas também tinham suas próprias lendas sobre nós, mas isso elas não contavam. Algumas delas serviam como portais para certos lugares e muitas vezes, à noite ou em locais desertos, algumas coisas as atravessavam para o lado de cá.

Antigamente, na época do avô do meu avô, eram mais freqüentes essas coisas acontecerem. Eles não se davam muita importância, embora soubessem da existência um do outro.

Quando garoto, meu avô achava estranho que seu pai sempre deixasse um pacote de rolo de fumo na soleira da casa a cada lua cheia que fosse precedida pela chuva. Sempre que isso acontecia, ele ficava acordado até de madrugada, escondido, para ver da janela o estranho que sempre aparecia para pegar o fumo.

Parecia ser um senhor muito baixo, quase da sua altura, usava um chapéu de abas largas e roupas humildes, sempre trazendo um cachimbo longo do qual saia uma fumaça que tomava tons de roxo ao luar.

Por causa da lua cheia o terraço ficava bem claro e meu avô podia jurar que o velho misterioso tinha pelos, pelo menos sua barba era tão grande que lhe caia sobre o peito, fora o dorso das mãos e dos pés peludos.

Ele contava que, após o velho pegar o fumo, dava uma longa baforada no cachimbo e gritava: Boa Sorte!

Gritar era forma de dizer, na verdade ele gritava sem gritar, e o timbre de sua voz, meu avô contava que nunca tinha ouvido nada parecido. Dizia que a única vez que questionou seu pai sobre o motivo que o fazia deixar o fumo, este simplesmente se resumiu a dizer que era por causa da boa sorte.

Era a época em que as simpatias do interior funcionavam. Ele contava que podíamos passar nossas doenças para alguns animais, que foi assim que sua avó tinha se curado da tuberculose, em uma noite de mormaço em agosto com a lua minguante. Seu pai tinha pescado um peixe e o soltara no rio logo após ela escarrar em sua boca.

Era tudo verdade, dizia ele. Algumas das árvores confirmavam, outras desconfiavam.

Ainda passo pelo meu antigo bairro de casas quase centenárias, hoje sendo engolida pelos prédios cada vez mais altos. Vejo meu pinheiro se erguer por detrás do muro amarelo, muitos metros acima do cume da casa.

Pergunto-me se era verdade o que meu pai contava, ou se fora mera coincidência. A verdade é que não teria coragem de perguntar isso diretamente ao pinheiro.

Parado, lhe dou um adeus silencioso e logo estou dobrando a esquina.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Resenha: Dublinenses – James Joyce


Depois de começar a ler as primeiras páginas de Ulysses, desisti e resolvi tentar ler James Joyce de forma cronológica.
Dublinenses me foi um espanto do primeiro ao último dos seus quinze contos. Dos textos curtos de histórias, que nada mais eram, do que pedaços do cotidiano dos moradores da Dublin do início do século XX, que começavam sem dar muita referência de seus personagens e terminavam por deixar mais curiosidades do que certezas sobre o que acabara de ocorrer, encontrei com elementos meus próprios, que de vez em quando teimam e permanecer nos textos do Tardes Quentes.
As lembranças da infância, as reflexões, o frio das noites de Dublin vinham até mim muitas vezes pelas noites de ventos frios e das chuvas de julho. Joyce apresenta personagens reais, desvelando os desejos e segredos destes, indo do desejo desesperado em asfixiar o filho contra o peito, os segredos das relações conjugais até o confronto com a lembrança de um amor perdido de sua esposa que o faria refletir sobre a própria passagem do tempo e do sentindo das palavras ditas nas festas natalinas.
Um livro que me deu saudade assim que terminei de ler sua última frase. Dera-me saudades de mim também, ou mais especificamente das histórias que trago comigo.
Dublinenses é aquele tipo de livro para se ler como quem come um pedaço de chocolate, sentindo o sabor aos poucos porque não se quer terminar. Pode ser até mal digerido. Mas, com certeza, se quererá mais um outro pedaço depois.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Lembranças de Hiroshima


De vez em quando o vento trás os ecos dos gritos. A brisa quente que chega furtiva pelo Pacífico e Atlântico, às vezes, parece trazer o calor atômico de 65 anos atrás.

Tenho lembranças de Hiroshima. Lembranças vindas de ecos que já perderam o som.

O segundo bigbang que dá origem a nossa era data de 65 anos, o flagelo da ultima Grande Guerra. Calor e fúria. Silêncio no final. Após 1945 nascemos meio natimortos.

Tenho lembranças de Hiroshima, das crianças indo para escola, das milhares de pessoas indo para o trabalho antes do silêncio, antes da primeira rajada de vento quente. Antes da morte instantânea de 78 mil pessoas. Antes do som voltar em um amálgama de berros, choros, gritos e desespero.

Prédios e vísceras no chão. Lembro de Einstein citar Gandhi.

Vejo fotos anônimas e imagino as milhares de pessoas que ainda não sabiam que estavam mortas, após a queda da bomba atômica.

Lembro do pavor da constatação de que se poderiam matar milhares em segundos. Os cogumelos que encontrava no quintal nunca foram mais os mesmos.

O vento frio que vem da chuva, que bate na minha varanda, leva os pensamentos pra longe. A paisagem se transforma e tudo volta a nascer. Prédios cada vez mais altos. Pessoas cada vez mais apresadas.

Vovô, quando vivo, falava que o tempo a tudo curava. Talvez.

Menos minhas lembranças de Hiroshima.


(Em memória aos mortos e sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima)


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(Hiroshima antes da bomba) (Hiroshima após o bombardeio)


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