segunda-feira, maio 07, 2012

Diários do Rio: Aprendizagem


 Passeio pela praia. Estou no Rio.

Bicicletas, árvores e corpos em constante tentativa de desnudar-se. Caminho pelas ruas e bairros de um Rio cantado e versado nas velhas bossas novas. Rio das opulentas ruas e shoppings e das favelas visíveis que circundam a cidade.

Mendigos e carros importados se cruzam diariamente, teatros e mais teatros. Penso nas peças que gostaria de ver. Talvez veja alguma. Tento me acostumar com o que encontro de diferente de mim pelas ruas. Artistas famosos sem maquiagem passam despercebidos pelas ruas, idosos e crianças tomam conta da Gávea no domingo de manhã.

Aprendo com a cidade e suas situações. Aprendi a trocar um pneu hoje. Aprendi que ficar calado no taxi ajuda a enganar o taxista para que ele não dê voltas desnecessárias para me levar a algum lugar. Aprendi que sorrisos são sorrisos em qualquer lugar e que na grande maioria das vezes são retribuídos.

Minha esposa compra sapatos. Compro livros. Conversamos e rimos no Rio. Combinamos de ir aos museus e assistir a alguma peça. Somos estrangeiros, em terras estrangeiras para nós.

Lembro constantemente de Um trem para as estrelas de Cazuza e Gil.

segunda-feira, abril 30, 2012

De partida


 

 Arquivo pessoal

Faço as malas. Vou partir e imagino o que verei e o que estarei por rever.

Não há espaço suficiente para o que levo na bagagem.

É tarde de domingo e sinto o fim do mormaço das 16h, sinto as pequenas gotas de suor em minha testa e imagino coisas bobas, situações bobas e as pessoas que encontrarei.

Estou de partida.

Parto também para minha velha terra, cuja poeira das tardes me é constitutiva. Caminho pelas ruas de paralelepípedo daquela cidadezinha em minha mente. Passo pelos bairros e pelas usinas. Percorro um passado com o qual não me identifico mais. Vou percorrê-las realmente em algum momento da minha viagem, mas serei um homem diferente a andar pelas ruas que percorria de bicicleta, pelas quais voltava da escola pra casa.

Escolho dois bons livros para levar, acomodo entre as camisas. Respiro fundo como se fosse mergulhar. Mergulho em lembranças ao escrever. Estou de partida. Levo livros, amores e amigos comigo. Sei que volto.

domingo, abril 22, 2012

21 de abril - Oito anos do Tardes Quentes de Outono



Pois é isso mesmo. Oito anos.
Escrevo a oito anos ininterruptos as mais diferentes coisas. Reflexões, diários perdidos, contos e histórias, na maioria e quase sempre sobre lembranças, das que já se foram às que ainda estão por chegar.
Estou longe dos 19 anos com os quais comecei a escrever, porém acabo por me aproximar um pouco mais dos meus próprios oito anos.
Oito anos de letras, palavras que não param de se multiplicar.
E hoje vejo que nesses oito anos, muitas dessas histórias não foram só endereçadas as mais diferentes pessoas e coisas, mas também a quem simplesmente quisesse lê-las. A quem acabava parando sem querer por aqui. Para mim também.
Até bem pouco tempo atrás eu não sabia o quanto e não me conhecia tanto, até ler alguns posts antigos, dos mais diversos dias desses oito anos. Conheci e me desconheci estrangeiro, órfão, inquisidor, engraçado, incoerente, cafona, contador de histórias por vezes.
Leio os contos que não recordo que escrevi e me divirto. Sou mais um estranho que caio por aqui, leio e esqueço do que li. As vezes sou você mesmo rs.
O melhor desses oito anos foi ter podido ter contato com as mais diversas figuras presentes e efêmeras que já passaram por aqui. Das que tive a oportunidade de conhecer em pessoa, das quais já conhecia e sempre estiveram por aqui, das que fiquei amigo e tenho a sorte de confrontar idéias, das que passaram pouco tempo e deixaram amizades e saudades, às que simplesmente passaram sem deixar vestígio por essas bandas.
Ainda continuo acreditando que as palavras trazem afeto, e afeto liga as pessoas. Obrigado a todos que tornaram e ainda tornam esse blog um lugar de afeto.
Obrigado a todos!

sexta-feira, março 16, 2012

O menino ou Pedaços de guardanapo


Continuo a escrever em pedaços de guardanapo. Fiquei sabendo que meu pai fazia o mesmo. Não sabia.
Meus guardanapos são das mesas de café, não dos bares como os seus. Não sou boêmio.
Tenho um pouco da alma e da vontade de transgressão boêmia. Não sou boêmio. Não como ele.
Vejo as pessoas presas no elevador panorâmico atrás de mim. Peixes num aquário, animais em exposição. Somos todos.
Escrevo em pedaços de guardanapo que numero com pequenos algarismos para delimitar as páginas.
Café e pão de queijo. Faço um calço com três saches de açúcar e ponho embaixo da mesa. Posso escrever enfim.
Que sou menino. Dizem. “Esse menino”. Dizem menino quando me apresento um homem. Falam do entusiasmo de quem começa quanto trago os calos de quem vem percorrendo longo caminho.
Olho no espelho e vejo a barba por fazer, algumas olheiras. Vejo o homem. É como se homem fosse o fato consumado, que definição engessada de si mesmo se chamasse homem. Sou um homem por fazer.
Futebol, cerveja, mecânica, matemática desculpem. Nada contra, mas estou mais a música, as contas, os cafés e a literatura.
Se sou menino, o sou quando me permito ser, quando o brincar de desenhar e escrever se traveste nas coisas sérias do cotidiano.
Mas que mentira. O menino me escapa. Ao homem escapa o menino, como se fosse mais treloso agora, depois de velho, do que quando era realmente menino.
Isso que me escapa ao escrever em pedaços de guardanapo à surpresa de saber que meu pai fazia o mesmo.
Sou um homem diferente dele. Gosto do homem que me tornei. Homenino em si mesmo.
Com letras e rabiscos nos pedaços de guardanapo da cafeteria. 

domingo, fevereiro 12, 2012

A Baba Yaga do Bairro Velho – do arco “personagens efêmeros do Recife Antigo”



Diziam que ela havia chegado junto com os holandeses. Era mais uma das estranhas a desembarcarem no porto da nova colônia holandesa. Russa, com certeza.
Provavelmente desembarcou pela noite, trazendo apenas um almofariz e uma vassoura de palha, ninguém falava com ela, mas comentavam de como uma mulher idosa como ela havia sobrevivido à viagem de navio.
De certo que ela sobreviveu e se adaptou aos primeiros anos na cidade Maurícea, devido à tolerância religiosa, onde já falava com forte sotaque. Pouco se sabe o que lhe aconteceu nos séculos que seguiram após a insurreição e a guerra dos mascates, mas sabe-se que sobreviveu.
Sua fama não era, e ainda é pouco, conhecida desse lado do oceano. Deixou para trás uma casa vedada por ossos, alicerçada sobre pés-de-galinha, de certo apodrecida e levada pelos séculos. Ela sobreviveu, as mudanças. Ela, seu pilão e sua vassoura. Acompanhou as mudanças dos séculos, as construções das pontes, os aterramentos, migrando de bairro em bairro. Usava o pilão não mais para voar, mas para bater paçocas de carne seca e a base das tapiocas.
Há quem diga que já a viu no Alto da Sé, mas é pouco provável, ela gostava mais do porto e raramente foi muito longe das pontes que levam ao marco zero.
Terminou seus dias vagando de casarão em casarão antigo a observar a decadência do Recife Antigo, quase sem falar mais seu idioma materno. Já não lembrava mais as palavras mágicas em Russo, e as ervas que usavam nas poções não se encontravam por aqui. Ficara louca, ela, que era uma das figuras mais poderosas do imaginário de suas terras, não lembrava mais o que a trouxera para esta terra quente, úmida, cheia de mangues e mosquitos.
Os últimos anos de sua estadia foram atestados por drogados e prostitutas que desapareciam pelos casarões. Ainda no fim do século passado fora vista uma única vez na lua cheia rindo dentro do almofariz voando pelas ruelas e apagando seus rastros com a vassoura de palha.
Se bem perguntarem sobre uma velha estranha com um pilão, provavelmente muitos não saberão dizer. O bairro está mais vazio a cada década, uma diáspora iniciada no século passado. Todos levados pelos bondes que não mais circulam.

domingo, fevereiro 05, 2012

O último dândi - do arco "personagens efémeros do Recife Antigo"


Trilha sonora: Blues da Piedade - Cazuza
Não era um dândi, mas era um dissidente do vulgar. Elegante com certeza, ao se destacar da grande diversidade de pessoas completamente diferentes a andar pelas ruas de paralelepípedos e rastros de bonde de séculos atrás.
Não tinha muito dinheiro, isso era verdade, mas ele vivia da própria fantasia que todos temos de ser aquilo que, enfim, não somos somente.
Respirava músicas de Cazuza, sendo o assassinato da flor seu mantra diário. Nas noites úmidas de diversos sons ele caminhava pelos becos e ruelas que levavam por fim a praça do arsenal, e há quem dissesse que já o vira de cartola e bengala. Talvez no carnaval, afinal os bares de radiolas-de-ficha do antigo bairro não eram convidativos para alguém nesses trajes, embora se vissem jovens de negro e alguns de sobretudo suando horrores nas noites quentes do bairro.
Não era uma figura folclórica do antigo bairro decadente de prédios e sinagogas recém-restauradas. Não era como o vendedor de flores de papel ou a velha dos cachorros. Era quase uma presença desencarnada, daquelas que se percebem de relance quando se olha sem querer para o lado.
O último dos dândis em uma época em que a imagem pesa mais do que o conteúdo, em que o belo fere àquele que dele não deveria sentir uma única falta, onde as pessoas andam com espelhos à face, olhando em todas as direções.
Há quem diga que o já viu tomando uma cerveja em frente ao antigo Cabaret, ou que já o viu ter o braço carimbado para entrar nas antigas festas que tocavam músicas dos anos 80 na velha panquequeria após a maia-noite, ou que já o vira sentado defronte para o monumento fálico do cais, cantado Blues da Piedade enquanto esperava pelas cinco horas da manhã para pegar a condução para casa.
Mas já faz muito tempo. Tempo da morte da velha dos cachorros e da grande maioria das figuras imaginárias que povoavam as ruas que hoje só ficam cheias nas feiras de domingo. Dizem que era uma mulher, que de perto não tinha como se confundir, mas na verdade ninguém dá à mínima, como não damos a mínima praquilo que não nos faz falta.
A noite chega, os casarões fecham suas portas. Fiteiros e pessoas na rua. De longe o som de uma ou duas alfaias. Chão de paralelepípedos com trilhos de bondes que não circulam a muitas décadas. Levaram todos.

sábado, janeiro 28, 2012

Cafuné ou Escuto a música de uma nave que se aproxima


O fato é que ando fazendo novas ilustrações e voltei a ter vontade de mexer no Photoshop. Não que eu tenha habilidade com cores, luz e sombras, mas que tem me dado vontade de brincar com algo além do preto e branco, ah isso tem.

Após uma semana de perdas tive o grande presente de estar reunido com amigos e seus cachorros no sábado. É ótimo ter amigos artistas, compadre e comadre então nem se fala. Tarde colorida, chuva só no finalzinho, clima agradável, grama, crianças e cachorros.

Levei um cachorro invisível, só eu podia vê-lo. Ficou brincando por lá, cheirando os outros cachorros sem eles perceberem. Ah danado! Voltou comigo no carro sem problemas.

Falei com Lula que andava com vontade de desenhar novamente e que pensei em fazer alguma brincadeira com as músicas da banda dele: A nave. 




Banda bacana, com músicos extraordinários. As músicas então... cotidiano real, nossas vidas. Do pancadão ao passeio pela praia com o cachorro Oscar.

Pra terminar esse post de agradecimento pela ótima tarde de sábado, uma música dA Nave (é só apertar play).




 

Você pode encontrar A Nave em: anavemusica.com.br/
Download do EP Clicando Aqui
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Quem procura...