domingo, julho 01, 2012

Depois da Chuva – do arco "Breves histórias de assassinatos e coisas obscuras"


Ele fumava o cigarro, suas mãos tremiam. Olhando para elas se deu conta do quão velho estava. À suas costas estantes e prateleiras abarrotadas de livros nos mais diversos idiomas.Dava mais um trago e se perguntava do que adiantava o conhecimento que tinha: saber ler em três idiomas; confrontar as visões de mundo de Schopenhauer e Nietzsche; saber se, para Camus, responder se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, não são tão fundamentais quanto responder a questão do suicídio.Um velho inteligente. Solitário, como a maioria das pessoas que são muito inteligentes. Sabia que não passaria daquela noite. Saboreou o cigarro como um último pedido. Só lhe tinham sobrado os livros, tinha gastado tudo na última empreitada, em um trabalho que aceitara quase de graça.Cobrava caro pelos seus serviços, era um garoto quando começou a aceitar assassinatos por encomenda. De boa família, culto, enfim, acima de qualquer suspeita. Matava políticos. Tinha uma foto emoldurada na sala em que apertava a mão de Vargas. Acima de qualquer suspeita.Seu último serviço o havia comprometido, sabia que subiam as escadas do seu prédio até a cobertura. Seu último serviço, sabia. O fizera da forma mais deliciosamente bárbara e profana, do que jamais fizera em todo os seus anos de trabalho.Fumava seu cigarro e aguardava ansioso pela sua aposentadoria que subia a paços largos pela escadaria do prédio.Porta arrombada e um tiro seco, silenciador. O corpo do velho em sua poltrona de leitura. Depois da chuva.

quarta-feira, junho 20, 2012

A coisa - do arco "Breves histórias de assassinato e coisas obscuras"

Era madrugada, o tempo tranquilo. Quem havia de sair já o tinha feito a mais de uma hora atrás. Saíram com medo, muito medo. O único que ficara queria mais, estava envolvido em algo que não tinha volta. Não queria voltar, não depois do que aparecera e lhe fora revelado pela pequena coisa que havia passado pela soleira a pouco mais de uma hora ao ser convocado por todos. A coisa continuava lá, magnifica, inominável. E ele adorava. Os demais correram, homens grandes a correr como meninos, exalando medo da coisa. É certo que o jornal da cidadezinha incobriu as estranhas mortes do alienista, o diretor do banco e do filho bastardo do prefeito da pequena cidade de Rios Turvos. Porém todos ouviram gritos na noite, e muito se comentava da pequena confraria que tinham entre si e dos encontros noturnos que tinham no velho monasterio franciscano no qual o bispo se hospedava quando vinha à pequena cidade. O próprio bispo celebrou a missa de caixão fechado dos três. Ele nunca fora tão bem em uma missa. O mês que passou na cidade foi marcado por pequenos sumiços na cidade. A coisa tinha fome. Terminou por comer o próprio clérigo. A coisa ainda vive pelo mosteiro, impedido de atravessar as portas. Ninguém mais se atreve a por os pés por lá.

terça-feira, junho 19, 2012

Espera - do arco "Breves histórias de assassinatos e coisas obscuras"

Esperava como quem espera por algo grandioso. Olhava pelas janelas imensas de vidro o céu nublado de um Recife em junho. Eram tempos de fogueiras. Ardia uma em sua mente. Pensava em tons vermelho-ouro do por-do-sol. Manteve-se calmo, tinha temperança de sobra para os males da vida. Olhava a chuva escorrer pelas janelas, o tempo levemente frio. Quando criança, aguardava anciso pelos pingos de chuva. Ria sozinho, admirava a chuva. Hoje iria matar um homem.

sábado, junho 16, 2012

Vazio

Havia lembrado de algo da sua infância, dessas coisas que ficam perdidas na memória até que algo acontece e isso vem a tona com toda força. Lera em um livro algo que o remetera aos livros que lia na infância. Fumava um cigarro de cravo, nem gostava tanto, e olhava a chuva contra a iluminação do poste. Era o cheiro de terra molhada. Sua máquina do tempo. Ficaria ainda dez minutos a olhar vazio a chuva contra a luz. O cigarro esquecido. Aguardando o fim do mundo.

quarta-feira, maio 23, 2012

Diários de Buenos Aires



O avião pousa, após momentos intermináveis de turbulência. Chove bastante, é verdade.

 

Procuramos a fila da imigração e só somos liberados após registro das digitais, identidade carimbada e foto para a imigração já depois da meia-noite. Empurro as malas, ansioso por fazer tantas coisas, mas com certeza dormir primeiro.

 

Chego em Buenos Aires nos últimos dias do outono. Perto do hotel no Soho folhas de três pontas despencam levemente das árvores e cobrem o chão da rua. 

 

 Acordamos tarde. O sol costuma acordar tarde também. Tomamos café no hotel. É o primeiro hotel que fico que toca rock como música ambiente. Juro que escutei AC/DC, Queen, Smiths, Beatles, Stones. Era muito divertido tentar adivinhar qual banda tocava baixinho toda vez que passávamos pelos seus corredores.

 

 Ficamos na enorme Palermo no soho, a poucos minutos de seus bosques. Passeamos pelo centro, percorrendo corredores e avenidas de lojas, cafés, livrarias, artistas de rua e restaurantes, tropeçando em brasileiros a cada 3 minutos e meio. Acolhedor. Convidativo. Rimos e nos enrolamos para nos comunicar, é tão engraçado que quase não incomoda as freqüentes investidas (educadas, digamos de passagem) das diversas pessoas que oferecem pacotes com shows de tango e jantares.

 

 Descubro que os hermanos adoram Beatles e que os punks são mais bem arrumados e aparentemente mais limpos do que os do Brasil. E mais importante, os mapas de lá funcionam. Caminhamos e damos de cara com protesto de trabalhadores, escoltados pelas tropas de choque. Nada que altere os olhares e o caminhar apressados das pessoas que percorrem o centro da cidade e passem ao lado sem se interessar muito pelo que acontece ao seu lado. 

 

 Pagamos um peso e vinte e cinco centavos no ônibus e percorremos o longo caminho que leva do centro de volta a Palermo Soho, passando por Belgrano. Olho pela janela do velho ônibus, que parece ter saído dos anos 60, e vejo a luz que ainda se infiltra pelas frestas dos prédios. São mais de 18h e o céu se degrada em vermelho, laranja e amarelo. Está mais frio. Acompanho o nome das ruas e traço o percurso no mapa que trago na outra mão. Olho pra ela e pergunto o que faremos a noite, enquanto o ônibus segue seu curso. Então ela diz:

 

 - Você não perde por esperar, rs.

sexta-feira, maio 11, 2012

Diários do Rio: Encontros


 

 

 

 

São coisas com as quais não deixo de me surpreender. Essas coisas que são levadas pelo vento, efêmeras.

Pães quentinhos, café, suco de laranja e bolo. Manhã de domingo levemente fria. Entre um gole e outro, rimos em uma pequena cafeteria de tijolos aparentes, em tons de marrom, baunilha e vermelho. Rimos porque o vapor do café embaça meus óculos quando bebo.

Conversamos sobre o que não reconhecemos de nós mesmos onde estamos. Falamos sobre choques de realidades sociais no Rio. Bebemos nosso café na Gávea, bela e arborizada. Favelas ao longe. Ostentação e necessidade. Bem que dá vontade, mas resisto em me sentir culpado pelas mazelas daqueles que na sua luta diária encontram as mais diversas formas de viver, sobreviver, amar.

Caminhamos pelos intrincados passeios do jardim botânico. Lembro-me de como achava que as plantas eram o ápice da perfeição. Fincadas na terra, erguendo-se ao sol, silenciosamente a moverem-se ao sabor do vento. Hoje não vejo muita diferença da terra que acolhe as raízes das palmeiras imperiais, que fazem fila indiana até o chafariz central, da terra e da poeira da Bahia antiga cantada por Vinícius, que na infância me eram constitutivas e que hoje se misturam com a terra do mangue pernambucano de Chico.

Caminho pelo jardim botânico e encontro com minhas próprias raízes.

No centro entramos em igrejas. Ela faz pedidos. Não sei o que fazer. É belo, não pela imensidão física, mas pela imensidão em si. Não consigo chegar muito perto da Candelária. Os sons de tiros antigos ainda ecoam muito alto. Fico muito desconfortável. Penso no homem da gravata florida de Jorge Benjor quase como um mantra enquanto me afasto de lá.

Não tive sorte com os espetáculos, realmente não vi uma peça. Aprendi sobre outras coisas. Continuo a aprender. Aprendo enquanto faço as malas para pegar o voo para Buenos Aires. Aprendo no caminho até o aeroporto. Irei continuar aprendendo com meus encontros comigo mesmo até chegar aonde, não sei.

 

segunda-feira, maio 07, 2012

Diários do Rio: Aprendizagem


 Passeio pela praia. Estou no Rio.

Bicicletas, árvores e corpos em constante tentativa de desnudar-se. Caminho pelas ruas e bairros de um Rio cantado e versado nas velhas bossas novas. Rio das opulentas ruas e shoppings e das favelas visíveis que circundam a cidade.

Mendigos e carros importados se cruzam diariamente, teatros e mais teatros. Penso nas peças que gostaria de ver. Talvez veja alguma. Tento me acostumar com o que encontro de diferente de mim pelas ruas. Artistas famosos sem maquiagem passam despercebidos pelas ruas, idosos e crianças tomam conta da Gávea no domingo de manhã.

Aprendo com a cidade e suas situações. Aprendi a trocar um pneu hoje. Aprendi que ficar calado no taxi ajuda a enganar o taxista para que ele não dê voltas desnecessárias para me levar a algum lugar. Aprendi que sorrisos são sorrisos em qualquer lugar e que na grande maioria das vezes são retribuídos.

Minha esposa compra sapatos. Compro livros. Conversamos e rimos no Rio. Combinamos de ir aos museus e assistir a alguma peça. Somos estrangeiros, em terras estrangeiras para nós.

Lembro constantemente de Um trem para as estrelas de Cazuza e Gil.

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