sábado, setembro 04, 2010

A filha do feiticeiro (ou quando virei peixe e fui ao fundo do oceano)

Ilustração de Chris Conover


Aonde vais ninguém sabe.
Talvez ao mesmo local aonde vai a fumaça que sai pelos meus dedos nos dias de chuva. Lembro da filha do feiticeiro que morava no fundo do mar.
Lembro de não saber aonde ias, agora que sou jogado ao mar, em forma de peixe. Nado sem rumo.
Pelas minhas guelras, não só o oxigênio filtro da água salobra, mas todas as lembranças da última semana, dos amigos que deixei sem notícias minhas, das inseguranças geradas pela falta de compreensão, daquela velha canção religiosa que meu pai cantava para que eu dormisse quando pequeno.
Nado fundo por já ter corrido o mundo como lebre e por já ter voado sobre os famintos, como ave.
Logo estou pendurado no grande candelabro, como bobo-da-corte, como na lenda viking, em que os milhares de peixes aparecem voando e se tem que descobrir qual deles comera o coração.
O dedo de minha mãe apontado para as gravuras, o som de sua voz ao falar os nomes dos personagens sem sotaque a ecoar na caverna pintada que guardava todo o alimento do mundo.
Aonde vais, ninguém sabe, tanto quanto eu. Tanto quanto afundo mais na água escura, ínfimo a me perder no oceano. Cachalotes me sobrevoam, gritando seus nomes. Talvez a sigam, talvez gritem seu nome.
Aonde vamos ninguém sabe. Nem ao menos nós. Nós nas cordas que nos atam uns aos outros. Outros rumos possíveis de tomarmos.
Deus pôs um sorriso no seu rosto, pelo menos na última vez que te vi.
Peixe. Nado a fundo cada vez mais. Trevas com tons de azul e esmeralda, sinto a água gelada em minhas escamas. Vejo algo. Cada vez mais próximo. Espere... estou vendo melhor. Sim, sim...

Trilha sonora: ponha a trilha sonora do post ao ler


*Referências tiradas da obra de Chris Conover e Chris Martin.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Lendas de família ou As árvores.


As árvores sempre me têm histórias para contar, sempre que passo por aquela ruela, que cruza a universidade católica. Quanta sabedoria. Demorei anos para compreendê-las.

Uma delas disse que meu pinheiro mandou lembranças.

Na minha antiga casa, tinha um pinheiro no quintal de concreto, o qual cumpria as funções de árvore de natal durante as festividades e casa de pássaros no resto do ano.

Em casa havia a lenda de que se o pinheiro passasse da altura do cume da casa, alguém nela morreria. Se era verdade ou não, o fato era que papai sempre deixava o pinheiro um metro abaixo do cume da casa.

Eu ainda não entendia o que elas falavam nessa época. Não chegavam a ser palavras e eram jogadas ao sabor do vento como pólen.

Elas também tinham suas próprias lendas sobre nós, mas isso elas não contavam. Algumas delas serviam como portais para certos lugares e muitas vezes, à noite ou em locais desertos, algumas coisas as atravessavam para o lado de cá.

Antigamente, na época do avô do meu avô, eram mais freqüentes essas coisas acontecerem. Eles não se davam muita importância, embora soubessem da existência um do outro.

Quando garoto, meu avô achava estranho que seu pai sempre deixasse um pacote de rolo de fumo na soleira da casa a cada lua cheia que fosse precedida pela chuva. Sempre que isso acontecia, ele ficava acordado até de madrugada, escondido, para ver da janela o estranho que sempre aparecia para pegar o fumo.

Parecia ser um senhor muito baixo, quase da sua altura, usava um chapéu de abas largas e roupas humildes, sempre trazendo um cachimbo longo do qual saia uma fumaça que tomava tons de roxo ao luar.

Por causa da lua cheia o terraço ficava bem claro e meu avô podia jurar que o velho misterioso tinha pelos, pelo menos sua barba era tão grande que lhe caia sobre o peito, fora o dorso das mãos e dos pés peludos.

Ele contava que, após o velho pegar o fumo, dava uma longa baforada no cachimbo e gritava: Boa Sorte!

Gritar era forma de dizer, na verdade ele gritava sem gritar, e o timbre de sua voz, meu avô contava que nunca tinha ouvido nada parecido. Dizia que a única vez que questionou seu pai sobre o motivo que o fazia deixar o fumo, este simplesmente se resumiu a dizer que era por causa da boa sorte.

Era a época em que as simpatias do interior funcionavam. Ele contava que podíamos passar nossas doenças para alguns animais, que foi assim que sua avó tinha se curado da tuberculose, em uma noite de mormaço em agosto com a lua minguante. Seu pai tinha pescado um peixe e o soltara no rio logo após ela escarrar em sua boca.

Era tudo verdade, dizia ele. Algumas das árvores confirmavam, outras desconfiavam.

Ainda passo pelo meu antigo bairro de casas quase centenárias, hoje sendo engolida pelos prédios cada vez mais altos. Vejo meu pinheiro se erguer por detrás do muro amarelo, muitos metros acima do cume da casa.

Pergunto-me se era verdade o que meu pai contava, ou se fora mera coincidência. A verdade é que não teria coragem de perguntar isso diretamente ao pinheiro.

Parado, lhe dou um adeus silencioso e logo estou dobrando a esquina.

segunda-feira, agosto 09, 2010

Resenha: Dublinenses – James Joyce


Depois de começar a ler as primeiras páginas de Ulysses, desisti e resolvi tentar ler James Joyce de forma cronológica.
Dublinenses me foi um espanto do primeiro ao último dos seus quinze contos. Dos textos curtos de histórias, que nada mais eram, do que pedaços do cotidiano dos moradores da Dublin do início do século XX, que começavam sem dar muita referência de seus personagens e terminavam por deixar mais curiosidades do que certezas sobre o que acabara de ocorrer, encontrei com elementos meus próprios, que de vez em quando teimam e permanecer nos textos do Tardes Quentes.
As lembranças da infância, as reflexões, o frio das noites de Dublin vinham até mim muitas vezes pelas noites de ventos frios e das chuvas de julho. Joyce apresenta personagens reais, desvelando os desejos e segredos destes, indo do desejo desesperado em asfixiar o filho contra o peito, os segredos das relações conjugais até o confronto com a lembrança de um amor perdido de sua esposa que o faria refletir sobre a própria passagem do tempo e do sentindo das palavras ditas nas festas natalinas.
Um livro que me deu saudade assim que terminei de ler sua última frase. Dera-me saudades de mim também, ou mais especificamente das histórias que trago comigo.
Dublinenses é aquele tipo de livro para se ler como quem come um pedaço de chocolate, sentindo o sabor aos poucos porque não se quer terminar. Pode ser até mal digerido. Mas, com certeza, se quererá mais um outro pedaço depois.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Lembranças de Hiroshima


De vez em quando o vento trás os ecos dos gritos. A brisa quente que chega furtiva pelo Pacífico e Atlântico, às vezes, parece trazer o calor atômico de 65 anos atrás.

Tenho lembranças de Hiroshima. Lembranças vindas de ecos que já perderam o som.

O segundo bigbang que dá origem a nossa era data de 65 anos, o flagelo da ultima Grande Guerra. Calor e fúria. Silêncio no final. Após 1945 nascemos meio natimortos.

Tenho lembranças de Hiroshima, das crianças indo para escola, das milhares de pessoas indo para o trabalho antes do silêncio, antes da primeira rajada de vento quente. Antes da morte instantânea de 78 mil pessoas. Antes do som voltar em um amálgama de berros, choros, gritos e desespero.

Prédios e vísceras no chão. Lembro de Einstein citar Gandhi.

Vejo fotos anônimas e imagino as milhares de pessoas que ainda não sabiam que estavam mortas, após a queda da bomba atômica.

Lembro do pavor da constatação de que se poderiam matar milhares em segundos. Os cogumelos que encontrava no quintal nunca foram mais os mesmos.

O vento frio que vem da chuva, que bate na minha varanda, leva os pensamentos pra longe. A paisagem se transforma e tudo volta a nascer. Prédios cada vez mais altos. Pessoas cada vez mais apresadas.

Vovô, quando vivo, falava que o tempo a tudo curava. Talvez.

Menos minhas lembranças de Hiroshima.


(Em memória aos mortos e sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima)


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(Hiroshima antes da bomba) (Hiroshima após o bombardeio)


quarta-feira, julho 28, 2010

Giz de Cera




Chego já de manhã. Faço o caminho contrário dos que lotam os ônibus e as avenidas de carros para o centro da cidade.
Meu ônibus é mais vazio, mas minha alma volta mais cheia. Preciso agradecer mais, a conversa com a menina que tem medo de mariposas me mostrou isso.
Enquanto caminho por entre as poças de água da chuva de ontem, penso no que a Jornalista escrevera sobre a aurora da vida e agradeço. Agradeço, com se agradecer sem dizer uma única palavra fosse ensurdecedor.
O sol nasce por detrás do meu prédio, batendo nas copas úmidas e barulhentas das árvores da rua. Estou com sono e ela ainda está dormindo. Por vezes fazemos o caminho inverso.
A escadaria pela qual eu subo na companhia da uma gata rajada em tons de branco e baunilha será a mesma a ser percorrida por ela, sempre com pressa. Meu subir é lento e preguiçoso.
Abro a porta do seu quarto e digo que vai se atrasar. Ela levanta o polegar e volta a dormir, logo estará correndo para não perder a hora. Lembro-a de que combinamos de ir à academia juntos, que precisamos perder peso. Ela quer fazer dança de salão. Eu desconverso.
Beijo rápido. Bom trabalho. Me liga mais tarde pra dizer se está tudo bem. Deixei o almoço pronto, não vá comer besteira. Você também.
Vou para a varanda, não consigo dormir pela manhã. Cantarolo uma velha canção de Chet Baker.
Estou com preguiça.
Deito na rede, folheio o livro que comprei no fim-de-semana e pela varanda vejo o mundo que colori com giz de cera.

terça-feira, julho 06, 2010

Casa Forte




Café, batata, terça-feira. Na verdade é quinta. Caminhei alguns quilômetros.

Meu irmão me fala sobre “A noite do espantalho”, eu não me lembro como era o final, então ele me explica e logo estamos falando de música.

Minh’alma voa longo ali e volta, enquanto passamos pelas árvores e prédios de Casa Forte. Rimos.

Somos crianças novamente a conversar. Caminhamos alguns quilômetros porque erramos parte do caminho, então, enquanto fazemos o caminho de volta, penso que muita coisa já está melhor.

Sou presa do seu sorriso fácil. Sorriso que brota do seu semblante fechado, junto com aquela lembrança de quando se era garoto e o mundo parecia menos perigoso, da segurança do nosso quarto, cheio de gibis e desenhos nas folhas de papéis espalhados pelo quarto.

Estamos quase chegando.

Ainda somos garotos a se empurrar e rir nas ruas de Casa Forte.





Trilha sonora:

terça-feira, junho 29, 2010

O Blog sobre si (ou Sobre a necessidade de falar deste espaço para seu próprio sentido).


Escrever sempre acaba sendo um exercício auto-imposto para mim. Um martírio que procuro aliviar escutando, como agora enquanto escrevo, Billie Hollyday, John Coltrane e Chet Baker. Já são seis anos de Tardes Quentes de Outono, do que antes era o DW e hoje é o Tempestade. E não paro de escrever, cada ano a seu ritmo, como se o escrever em si e não necessariamente o que é escrito, já fosse sentido o bastante para a sobrevivência desse espaço.
Do, hoje longe, ano de 2004 sobram tantas lembranças, quanto palavras no dicionário que por vezes fica perdido em meu escritório.
Lembro de quando não haviam tantos blogs, de como eram tão padronizados: à direita: nome, signo, idade, o que gosta, o que se odeia e à esquerda o detalhado cotidiano. Os que lia na época (“Life is but a dream (Eu na chuva)” e o “Sex, lies and one life”) embora diferentes, tinham algo que me fugia, que também não encontro aqui.
Não eram páginas na tela do meu computador, eram locais em que eu poderia me sentar à sombra e descansar, ou por onde eu caminhava à noite. Era esse o tipo de local que eu queria.
O nome veio de um texto que escrevi na varanda da minha casa, sentado perto do meu antigo pinheiro, com os cabelos molhados no sereno da noite. O conteúdo, principalmente, veio dos meus amigos de todos os cantos e momentos (passados e futuros).
Do filme de Godard e dos debates no boteco com a Jornalista e Pepel até a minha busca pelo tempo perdido já se passaram muitos anos, muitos livros, algumas mortes e alguns nascimentos também. O futuro me é saudosista. Tenho saudade de tudo que ainda não vivi porque o que já passou trago guardado dentro de mim.
Brinco de escrever, sem me importar com a métrica, concordando com a discordância por vezes. Brinco de tornar o cotidiano em história, de por pingos de chuva em dias de sol escaldante só para me refrescar. Minto da mais deliciosa forma as histórias que são verdade, na verdade de serem apenas histórias.
Danço sozinho em casa, como se não estivesse a fazer a faxina da semana, logo após chegar de outro plantão, deixando subir o vapor do café bem doce feito na cafeteira que ganhei de presente de casamento. O cotidiano ganha mais sabor quando temos tempo de parar para lembrar das pequenas coisas, daquela faxina que me deixou quebrado aquele dia, das horas de transito que pegamos na carona do amigo para chegar em casa tarde durante a semana, de por minha sobrinha para dormir em meus braços enquanto canto Beatles bem baixinho pra ela e sinto o peso do corpinho e sua respiração em meu ombro antes de pô-la no berço, ou daquela chuva que deu e deixou a gente todo molhado e tivemos que nos aquecer um no outro.
Ainda sinto o prazer que sentia quando caminhava por aquela alameda cheia de árvores as seis e meia da manhã a caminho da escola, com o sol se infiltrando por entre as copas e o vento frio que trazia todo o sono que havia deixado no banho frio de casa.
Talvez esse seja o momento em que paro um pouco e saboreio o cotidiano das minhas tardes quentes de outono. É bom, é bom..

“Escritores são mentirosos” – Erasmus Fry durante uma conversa, 6 de maio de 1986




Sobre as chuvas...

Estou pensando em juntar os amigos para fazer um mutirão voluntário nesse fim-de-semana para ajudar a separar e carregar as doações que chegam no quartel do Derby. Quer ajudar também? Mesmo que não seja aqui, no mutirão, sempre dá pra ajudar de alguma forma.
Quem quiser saber sobre local, hora e se vai rolar mesmo esse encontro solidário é só mandar um e-mail para: diaschuvosos@gmail.com e falar com o Tempestade.
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