quarta-feira, julho 22, 2009

Movimento


Ela dançava em círculos de olhos fechados até ficar tonta. A vida era uma dança circular, uma ciranda solitária ao redor do nada que era sua vida.

Seu corpo suava em bicas e ela ficava imaginando como poderia suar tanto, como podia se preocupar tanto. Olhava-se nua no espelho e tentava juntar os pedaços de si.

Cabelos sobre os olhos, o chão frio sobre seus pés... Voltava a dançar em círculos de olhos fechados, para sempre rodando, rodando...

......

Sete horas. A voz do Brasil anunciava mais atos secretos descobertos, reproduzindo os discursos de parlamentares em um som repleto de estática, com a mesma péssima qualidade de 40 anos atrás. Uma cidade de concreto, repleta de segredos.

Oito horas. Os jornais relatavam epidemias mundiais, crises financeiras, mais uma matança em um colégio americano seguido pelo suicídio de um aluno. Fome e enchentes aqui, AIDS e fome na África, Guerra e fome em Gaza, Petróleo e fome nos Emirados.

Vinte e quatro horas de novas notícias a cada minuto na web. Campeão de comer tortas, briga de gangues, alguém canta solitário, alguém filma seu cachorro vomitando, 30 segundos de um rosto cortado pela lâmina da gilete vertendo sangue, alguém que consegue enfiar a mão inteira na boca...

......

Ela girava em seu quarto com os olhos fechados.

O mundo girava ao redor dela, com fome. Ambos giravam para o mesmo lado.

Cápsulas pelo chão, a parca luz do sol das quatro e quarenta e nove da manhã se infiltrava frio pelas persianas abertas de seu quarto. Ela girava. A música era lenta e ela podia sentir a grama molhada sobre seus pés. Cheiro de terra molhada, leve garoa lá fora e o vento frio entrava eriçando seus pelos.

Ela não conseguia parar de girar. Logo estava tomando banho e indo para o trabalho. Duas horas e dois ônibus. Ponto batido às oito e sete. E ela continuava a girar em seu quarto.

Quatro horas em uma mesa, papeis e mais papeis, um cafezinho e cinco minutos para um cigarro. E ela continuava a girar em seu quarto.

As doze e vinte e três o almoço, sem fome, outro gole de café para voltar à mais quatro horas de papeis e mais papéis. Os pés doíam no salto. E ela continuava a gritar em seu quarto.

Três horas e meia para voltar, dois ônibus, chuva torrencial. E ela continuava a gritar em seu quarto. Três horas em pé, apertada, suada.

Ela não parava de girar e gritar em seu quarto. Passos rápidos, ela subia as escadas desesperadamente ao seu próprio encontro. Primeiro andar, segundo andar, no terceiro andar já não conseguia manter o ritmo. Podia ouvir de longe o grito. Ela girava de braços abertos e sentia os respingos da chuva que invadia seu quarto pela janela aberta.

Porta aberta, saltos jogados no canto. Sentia o chão frio enquanto caminhava descalça pelo apartamento até seu quarto.

Ao abrir a porta só havia as mesmas cápsulas no chão, uma pequena poça formada pela água, que respingava pela janela, e uma luz neon que vinha de um letreiro a dez metros de sua janela, que brilhava em tons púrpura e azul.

Caminhou até a varanda, sentando na poltrona que dava de frente para a extensa avenida, sentindo os pingos da chuva e o vento frio que tirava seus cabelos dos olhos.

E lá ficou a olhar o mundo girar


Trilha sonora:

PJ Harvey: Down By The Water



2 comentários:

Vivianne Mello disse...

"I lost my heart under the bridge
To that little girl"

Tempestade disse...

"Down by the water
I took her hand
Just like my daughter
See her again"

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